A resposta curta
Vem do Bhagavad Gita, a escritura hindu, em que o deus Krishna revela a forma divina ao guerreiro Arjuna. Robert Oppenheimer contou que o verso lhe veio à mente no primeiro teste atômico, o Trinity, em 16 de julho de 1945, mas a frase famosa é uma lembrança dele na TV americana, em 1965, e não algo registrado no teste.
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O que ele disse, e quando
As palavras que todo mundo cita foram ditas vinte anos depois da explosão, diante de uma câmera. Em 1965, Oppenheimer deu entrevista a um documentário da rede NBC sobre a decisão de usar a bomba. Falando devagar, relembrou os minutos depois do teste: alguns riram, outros choraram, quase todos ficaram calados. “Sabíamos que o mundo não seria o mesmo”, disse. Depois se lembrou de uma passagem do Bhagavad Gita em que o deus, tentando convencer um príncipe a cumprir o dever, assume a forma de muitos braços e diz: “Agora me tornei a Morte, a destruidora de mundos.” No inglês dele: “Now I am become Death, the destroyer of worlds.” Ele imaginava, acrescentou, que todos ali tinham pensado algo parecido.
Não há registro de que ele tenha dito a frase em voz alta no Trinity. A versão que o mundo conhece é a memória dele, contada diante da câmera em 1965.
O verso no Gita
O Bhagavad Gita, cujo título quer dizer algo como “o canto do Senhor”, é um diálogo de 700 versos dentro do Mahabharata, a grande epopeia indiana em sânscrito. No campo de batalha de Kurukshetra, o príncipe guerreiro Arjuna baixa o arco: não quer matar os próprios parentes. O cocheiro dele, Krishna, uma encarnação do deus Vishnu, lhe ensina o que é o dever. No capítulo 11, a pedido de Arjuna, Krishna mostra a forma universal, flamejante, com incontáveis braços e bocas que engolem os exércitos dos dois lados. Apavorado, Arjuna pergunta quem ele é. A resposta, no verso 11.32, começa assim: kālo ’smi loka-kṣaya-kṛt pravṛddho, mais ou menos “sou o Tempo, já crescido, destruidor dos mundos”.
Tempo ou Morte?
A palavra-chave é kāla. Quer dizer tempo e, por extensão, morte: o tempo que põe fim a tudo. Muitos tradutores escrevem “Tempo”; Oppenheimer disse “Morte”. Ele tinha estudado sânscrito em Berkeley, nos anos 1930, com o professor Arthur Ryder, e lia o Gita no original. O inglês arcaico “I am become” equivale a “I have become”, eu me tornei. No contexto, o deus não se gaba da destruição em si: diz a Arjuna que os guerreiros já estão condenados e que o dever do príncipe é lutar. Os leitores de Oppenheimer discutem até hoje se ele falava de culpa, de dever ou das duas coisas.
O teste por trás da frase
O teste aconteceu às 5:29 da manhã de 16 de julho de 1945, no deserto do Novo México chamado Jornada del Muerto. A bomba, apelidada de Gadget, ficava no alto de uma torre de aço, e os observadores se protegiam em abrigos e trincheiras a quilômetros de distância. Oppenheimer, diretor do laboratório de Los Alamos, escolheu ele mesmo o nome Trinity, Trindade; anos depois, disse que talvez tivesse em mente um soneto de John Donne dirigido ao Deus em três pessoas. Para guardar o segredo, o Exército anunciou a explosão de um depósito de munição. Três semanas depois, em 6 e 9 de agosto, bombas americanas destruíram Hiroshima e Nagasaki; entre 150 mil e 246 mil pessoas morreram nas duas cidades em até quatro meses, segundo a Fundação de Pesquisa dos Efeitos da Radiação.
Depois do Trinity
Moscou tirou a própria conclusão. Stálin já sabia da bomba pelos espiões, entre eles Klaus Fuchs (quem foi Fuchs). Em público, deu de ombros: “As bombas atômicas se destinam a intimidar quem tem nervos fracos.” Em segredo, mandou fazer uma bomba soviética a qualquer custo, testada em 1949 (por que o Relógio do Juízo Final andou). Oppenheimer passou o resto da vida discutindo o controle da arma. Opôs-se a um programa acelerado da bomba de hidrogênio em 1949 e perdeu o acesso a informações sigilosas em 1954, decisão que o Departamento de Energia anulou em 2022. O filme Oppenheimer, de 2023, levou o verso do Gita a uma nova geração.
Fontes
- J. Robert Oppenheimer, entrevista ao documentário The Decision to Drop the Bomb, NBC (1965)
- Bhagavad Gita 11.32 (Mahabharata, Bhishma Parva)
- Fundação de Pesquisa dos Efeitos da Radiação (RERF), estimativas de mortos em Hiroshima e Nagasaki
- Kai Bird e Martin J. Sherwin, American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer (2005)