A resposta curta
Começou em etapas, entre 1945 e 1949, sem data única. Os aliados brigaram pela Polônia depois de Ialta, a bomba atômica americana assustou Moscou e, em 1946, os diplomatas de cada lado concluíram que o outro se preparava para a guerra. A Doutrina Truman, o Plano Marshall e o bloqueio de Berlim dividiram a Europa em dois campos.
Revisado em
Aliados com medos diferentes
No começo de 1945, Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética ainda eram aliados. Mas cada um saiu da guerra com uma ferida diferente: cerca de 27 milhões de mortos soviéticos, cerca de 400 mil americanos. Para Moscou, a lição era geográfica. A Alemanha tinha invadido a Rússia pela Polônia duas vezes em trinta anos, por isso Stálin queria governos de confiança na fronteira oeste. Para Washington, a lição vinha dos anos 1930: esferas de influência fechadas levavam à guerra, e ditador que engole vizinho precisa ser contido cedo. O que um lado chamava de segurança, o outro via como expansão.
A corrente, de 1945 a 1949
- Ialta, fevereiro de 1945. Os Três Grandes prometem à Polônia “eleições livres e sem entraves” quando o Exército Vermelho já ocupa o país, e cada capital lê o acordo do seu jeito (o que se decidiu em Ialta).
- A Bomba, verão de 1945. O teste Trinity dá certo em 16 de julho. Em Potsdam, Truman insinua que tem uma arma nova; Stálin, que já sabia mais pelo espião Klaus Fuchs, manda construir uma bomba soviética a qualquer custo (Oppenheimer e o teste Trinity).
- Um nome, outubro de 1945. George Orwell imagina superestados atômicos presos numa “guerra fria” (de onde vem o nome).
- Dois telegramas, 1946. Em fevereiro, Kennan diz a Washington que o poder soviético recua diante da firmeza; em setembro, Novikov diz a Moscou que os Estados Unidos buscam a supremacia mundial (o Longo Telegrama).
- Fulton, março de 1946. Churchill anuncia que uma cortina de ferro desceu sobre a Europa; Stálin responde no Pravda que, depois da invasão alemã, Moscou quer vizinhos leais (a Cortina de Ferro).
- A Doutrina Truman, março de 1947. Truman pede 400 milhões de dólares para sustentar a Grécia e a Turquia e apresenta a escolha como mundial (a Doutrina Truman).
- O Plano Marshall, 1947. A ajuda é oferecida à Europa inteira. Molotov abandona a conferência de Paris, os vizinhos de Moscou ficam de fora e, em setembro, Andrei Jdanov declara o mundo dividido em “dois grandes campos” (o Plano Marshall).
- Berlim, 1948 e 1949. Depois que o Ocidente lança uma moeda nova, Moscou bloqueia Berlim Ocidental, abastecida pelo ar durante onze meses (a ponte aérea).
- 1949. A OTAN nasce em abril, surgem duas Alemanhas, a União Soviética testa a própria bomba em 29 de agosto e Mao Tsé-tung proclama a República Popular da China em 1º de outubro (por que o Relógio do Juízo Final andou).
Quem começou?
Os historiadores ainda discutem, e a resposta mudou conforme os arquivos se abriram. A primeira escola ocidental, nos anos 1950, culpava a expansão soviética: Stálin descumpriu a promessa de eleições feita em Ialta e impôs governos comunistas aos vizinhos. Os revisionistas dos anos 1960, como o americano William Appleman Williams, culpavam o monopólio atômico e a busca de mercados abertos dos Estados Unidos, que teriam deixado Moscou acuada, como sempre disse a versão oficial soviética. Desde a abertura dos arquivos soviéticos, nos anos 1990, muitos historiadores, entre eles John Lewis Gaddis, dão mais peso à desconfiança de Stálin; outros, como Melvyn Leffler, mostram como a busca de segurança de cada lado parecia agressão vista do outro.
Quando começou, afinal?
Não houve declaração de guerra. A convenção mais comum vai da Doutrina Truman, em 1947, ao fim da União Soviética, em 26 de dezembro de 1991; há quem comece com a Polônia em 1945 ou com Fulton em 1946, e quem volte a 1918, quando tropas ocidentais desembarcaram na Rússia revolucionária. No Brasil, a divisão chegou cedo: em maio de 1947, o Tribunal Superior Eleitoral cassou o registro do Partido Comunista do Brasil, e em outubro o governo Dutra rompeu relações com a União Soviética, só retomadas em 1961. No fim de 1949, o desenho estava pronto: duas Alemanhas, uma aliança ocidental e a Bomba dos dois lados. E a guerra seguiu fria num sentido preciso: as duas superpotências nunca mandaram os próprios exércitos uma contra a outra.
Fontes
- Protocolo da Conferência da Crimeia (Ialta), 11 de fevereiro de 1945 (Avalon Project)
- George F. Kennan, telegrama 511, Moscou, 22 de fevereiro de 1946 (FRUS 1946, vol. VI, doc. 475)
- Harry S. Truman, discurso ao Congresso dos Estados Unidos, 12 de março de 1947
- John Lewis Gaddis, The Cold War: A New History (2005)
- Melvyn P. Leffler, A Preponderance of Power (1992)
- Vladislav Zubok, A Failed Empire: The Soviet Union in the Cold War from Stalin to Gorbachev (2007)
- Brasil: cancelamento do registro do Partido Comunista do Brasil pelo Tribunal Superior Eleitoral (7 de maio de 1947) e rompimento das relações com a União Soviética (21 de outubro de 1947)