A resposta curta
Porque Estados Unidos e União Soviética nunca lutaram diretamente um contra o outro: a rivalidade ficou “fria”, sem guerra aberta, enquanto outras guerras eram travadas por procuração. George Orwell usou “guerra fria” para um impasse nuclear em outubro de 1945, e em 1947 o financista Bernard Baruch e o colunista Walter Lippmann espalharam o termo nos Estados Unidos.
Revisado em
O ensaio de Orwell, outubro de 1945
Dez semanas depois de Hiroshima, George Orwell escreveu um texto curto para o semanário londrino Tribune, “Você e a bomba atômica”, publicado em 19 de outubro de 1945. O raciocínio dele partia do custo. Se a bomba continuasse rara e cara, só dois ou três Estados enormes conseguiriam fabricá-la. Eles seriam fortes demais para serem conquistados e teriam medo demais um do outro para lutar, e o mundo entraria num longo impasse armado. Orwell se perguntava que crenças e que tipo de sociedade cresceriam dentro de um Estado assim, que ele descreveu como
um Estado ao mesmo tempo inconquistável e num permanente estado de “guerra fria” com seus vizinhos
Orwell pôs as palavras entre aspas e não se disse inventor delas, mas o ensaio é o uso mais antigo que se conhece da expressão para um impasse entre potências atômicas. Ele não falava só de Estados Unidos e Rússia: imaginava o mundo inteiro repartido entre superestados, a mesma visão que volta em 1984 (1949), com três potências sempre em guerra.
Baruch, Swope e Lippmann, 1947
O termo atravessou o Atlântico em 1947. Em 16 de abril, Bernard Baruch, financista e conselheiro de presidentes que acabara de representar os Estados Unidos na Comissão de Energia Atômica da ONU, disse a uma plateia em Columbia, na Carolina do Sul, que o país já estava numa guerra fria. A expressão foi sugerida pelo redator dos discursos dele, Herbert Bayard Swope, ex-editor de jornal. Ainda em 1947, o colunista Walter Lippmann lançou um livrinho chamado The Cold War, que reunia artigos contra a ideia de George Kennan de conter o poder soviético (o Longo Telegrama). Lippmann temia que a contenção amarrasse os Estados Unidos a aliados fracos ao longo de toda a fronteira soviética e preferia negociar a retirada dos dois exércitos da Europa. Perdeu a discussão, mas ganhou o título.
Moscou dava outro nome à mesma divisão. Em setembro de 1947, Andrei Jdanov, porta-voz de Stálin em matéria de ideologia, falou em “dois grandes campos”, um imperialista, liderado pelos Estados Unidos, e outro liderado pela União Soviética (o Plano Marshall).
O que “fria” queria dizer
“Fria” queria dizer que as duas superpotências nunca mandaram abertamente os próprios exércitos uma contra a outra, nem por Berlim nem por Cuba (a Crise dos Mísseis); pilotos de caça soviéticos chegaram a voar na Coreia, mas em segredo. O motivo principal era a Bomba. Depois do primeiro teste soviético, em 1949, uma guerra direta podia destruir os dois lados, a lógica que mais tarde ganhou o nome de destruição mútua assegurada (o que é MAD). A disputa foi então para todo o resto: alianças, dinheiro, propaganda, espiões, corrida armamentista e foguetes até a Lua. E não foi fria em toda parte. Na Coreia, no Vietnã, no Afeganistão e em guerras civis na África, na Ásia e na América Latina, milhões morreram em conflitos nos quais as superpotências apoiavam lados opostos ou mandavam as próprias tropas contra os aliados do rival.
Palavras da mesma época
Os anos 1940 deixaram outras palavras que usamos até hoje. Superpotência, no sentido moderno, vem de um livro de 1944 do americano William Fox; cortina de ferro ficou famosa em Fulton, em 1946 (a frase de Churchill); contenção veio de Kennan; e o Relógio do Juízo Final apareceu numa capa de revista em junho de 1947 (por que o relógio foi criado). Em russo, a expressão é kholodnaya voyna: as mesmas duas palavras.
Fontes
- George Orwell, “You and the Atomic Bomb”, Tribune, 19 de outubro de 1945
- Bernard Baruch, discurso em Columbia, Carolina do Sul, 16 de abril de 1947
- Walter Lippmann, The Cold War: A Study in U.S. Foreign Policy (1947)
- William T. R. Fox, The Super-Powers (1944)
- John Lewis Gaddis, The Cold War: A New History (2005)