A Guerra Fria · Pessoas

Quem foi Klaus Fuchs?

A resposta curta

Klaus Fuchs foi um físico nascido na Alemanha que trabalhou na bomba atômica em Los Alamos, pela Grã-Bretanha, e passou segredos dela à União Soviética, inclusive o projeto da bomba de plutônio, em junho de 1945. Telegramas soviéticos decifrados levaram até ele; confessou em janeiro de 1950, cumpriu nove dos catorze anos e morreu na Alemanha Oriental, em 1988.

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Um refugiado no projeto britânico

Klaus Fuchs nasceu em 1911 em Rüsselsheim, na Alemanha, filho de um teólogo luterano. Filiou-se ao Partido Comunista ainda estudante, escapou dos nazistas em 1933 e se refugiou na Grã-Bretanha. Fez doutorado em física em Bristol e trabalhou com Max Born em Edimburgo. Em 1940, foi mandado para um campo de internamento no Canadá como estrangeiro inimigo; solto, juntou-se a Rudolf Peierls em Birmingham, em 1941, na pesquisa britânica da bomba, e se naturalizou britânico em 1942. A essa altura, já passava essa pesquisa à inteligência soviética.

Los Alamos e o projeto de plutônio

No fim de 1943, Fuchs atravessou o Atlântico com os cientistas britânicos enviados ao Projeto Manhattan, primeiro para Nova York e, a partir de agosto de 1944, para Los Alamos, no Novo México. Entregava papéis a um mensageiro que só conhecia por um codinome, Raymond. Em junho de 1945, semanas antes do primeiro teste, no deserto do Novo México, passou a Raymond o projeto da bomba de plutônio.

Em 29 de agosto de 1949, a União Soviética testou a primeira bomba atômica, no Cazaquistão, quase uma cópia da que caiu sobre Nagasaki. A CIA esperava esse teste para meados de 1953. Os historiadores calculam que Fuchs poupou ao programa soviético de um a dois anos de trabalho. Moscou conta a história com outra ênfase: Stálin pôs o chefe da polícia secreta, Lavrenti Béria, à frente de um programa acelerado, e foram físicos soviéticos que construíram a bomba. Em novembro de 1947, o chanceler Viatcheslav Molotov disse ao mundo que o segredo da bomba “deixou de existir há muito tempo”.

Como os decifradores chegaram a ele

Fuchs caiu por causa de outro segredo. Desde 1943, decifradores do Exército em Arlington Hall, na Virgínia, tentavam quebrar os telegramas soviéticos, e alguns ficaram legíveis porque os cifradores de Moscou tinham reaproveitado páginas de blocos de chaves descartáveis. Em 1949, um telegrama de Nova York, de 1944, trazia um relatório britânico roubado sobre a separação do urânio. O FBI e o MI5 britânico chegaram ao autor: Fuchs, então chefe de física teórica em Harwell, sede da pesquisa atômica britânica. Nos telegramas, ele aparece como REST e, mais tarde, CHARLES.

Nenhum tribunal podia ver aqueles telegramas sem que Moscou descobrisse que estavam sendo lidos. Por isso, o agente do MI5 William Skardon voltou a Harwell muitas vezes para conversar, e, em janeiro de 1950, Fuchs contou tudo. O depoimento escrito explica como ele começou:

Naquela época, eu tinha total confiança na política russa e acreditava que os Aliados ocidentais deixavam, deliberadamente, que a Rússia e a Alemanha lutassem uma contra a outra até a morte.

Klaus Fuchs, depoimento ao MI5, Ministério da Guerra, Londres, 27 de janeiro de 1950

Em 1º de março de 1950, no Old Bailey, o tribunal criminal de Londres, ele pegou catorze anos, o máximo previsto, porque a União Soviética tinha sido aliada, e não inimiga.

Os elos seguintes

Em maio de 1950, Fuchs identificou Raymond em fotos do FBI: era Harry Gold, químico da Filadélfia. Gold entregou um mecânico do Exército em Los Alamos, David Greenglass, e Greenglass entregou o cunhado, Julius Rosenberg, cujo caso está em O casal Rosenberg era culpado?. A confissão veio duas semanas antes do discurso do senador McCarthy em Wheeling.

Fuchs não era a única fonte dentro de Los Alamos. Os telegramas citam Ted Hall, físico que, aos dezenove anos, entregou o mesmo projeto. Hall nunca foi acusado, porque as provas eram secretas demais para um júri. Em 1950, outro físico de Harwell, Bruno Pontecorvo, fugiu para Moscou.

Depois da prisão

A Grã-Bretanha cassou a cidadania de Fuchs. Libertado em 1959, depois de nove anos, ele foi para a Alemanha Oriental, onde se tornou um cientista nuclear de destaque. Morreu em Berlim Oriental em 1988. Os telegramas que o denunciaram continuaram secretos até 1995, quando a divulgação do Venona mostrou o quanto os decifradores sabiam.

Fontes

  • Klaus Fuchs, depoimento a William Skardon (MI5), 27 de janeiro de 1950 (Arquivo Nacional britânico)
  • Telegramas do Venona, Agência de Segurança Nacional dos EUA (divulgados em 1995)
  • Robert Louis Benson e Michael Warner (orgs.), Venona: Soviet Espionage and the American Response, 1939–1957 (NSA e CIA, 1996)
  • Frank Close, Trinity: The Treachery and Pursuit of the Most Dangerous Spy in History (2019)