A Guerra Fria · Textos

‘As bruxas de Salem’ é sobre o macarthismo?

A resposta curta

Sim, embora nunca cite McCarthy nem o comunismo. A peça de Arthur Miller, que estreou na Broadway em janeiro de 1953, se passa nos julgamentos de Salem de 1692, em que o acusado era poupado se confessasse e entregasse outros nomes. O público reconheceu ali as audiências do Congresso, e o próprio Miller depois se recusou a entregar nomes.

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Uma peça passada em 1692

As bruxas de Salem (no original, The Crucible) estreou no teatro Martin Beck, na Broadway, em 22 de janeiro de 1953. Arthur Miller ambientou a peça em Salem, Massachusetts, em 1692, quando acusações de bruxaria numa aldeia viraram julgamentos com mais de 200 acusados e vinte executados. O texto não fala do Congresso, do comunismo nem do senador McCarthy. Mesmo assim, o público de 1953 percebeu o paralelo, e a peça ganhou o prêmio Tony de melhor peça naquele ano.

Miller, Kazan e o comitê

Miller foi ler os autos dos julgamentos em Salem em 1952. Na autobiografia Timebends (1987), ele conta o que aconteceu pouco antes. Parou em Connecticut, na casa do amigo Elia Kazan, que tinha dirigido na Broadway Todos eram meus filhos e A morte do caixeiro-viajante. Kazan contou que tinha decidido colaborar com o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara e citar pessoas que conhecera no Partido Comunista. Miller seguiu viagem até Salem. O depoimento de Kazan faz parte da história da lista negra de Hollywood.

Com o tempo, o comitê também chegou a Miller. Em 1954, o Departamento de Estado lhe negou o passaporte para a estreia da peça em Bruxelas. Em junho de 1956, ele depôs diante do comitê da Câmara, falou do próprio passado e se recusou a citar as pessoas que tinha visto, anos antes, em reuniões de escritores comunistas. Foi condenado por desacato ao Congresso em 1957, e um tribunal de apelação anulou a condenação em 1958.

O paralelo: confessar e entregar

Salem deu a Miller um mecanismo, mais do que um cenário. Em 1692, o acusado podia escapar confessando e entregando outros; quem mantinha a inocência ia para a forca. Nos anos 1950, uma testemunha podia limpar o nome e voltar a trabalhar se depusesse diante de um comitê e entregasse outros nomes. Nos dois casos, um nome dito por outra pessoa podia bastar para arruinar uma vida.

O herói de Miller, o fazendeiro John Proctor, acaba aceitando confessar, mas se recusa a deixar que o papel assinado seja pregado na porta da igreja, porque isso o marcaria e envergonharia os que morreram calados. Quando lhe perguntam por quê, responde que aquele é o nome dele, e que não pode ter outro. Ele prefere a forca à assinatura.

Onde a comparação falha

Desde o início, críticos apontaram uma falha. Em Salem não havia bruxas; os acusados eram inocentes de algo impossível. Nos Estados Unidos dos anos 1950 havia comunistas de verdade, e alguns tinham espionado para Moscou, como os telegramas do Venona confirmaram depois. Lida assim, a peça acerta sobretudo no método: o que acontece quando a acusação passa por prova e quando o caminho para se salvar passa pelo nome dos outros. As duas coisas valem ao mesmo tempo.

Como “caça às bruxas” virou expressão política

Na política, caça às bruxas é a perseguição de inimigos com base em boatos, em que a acusação faz as vezes de prova. A expressão já circulava antes da peça. Em 1º de junho de 1950, na Declaração de Consciência, a senadora Margaret Chase Smith disse ao Senado que não queria nem acobertamento dos democratas nem difamação ou caça às bruxas dos republicanos. Miller deu à expressão uma história que todo mundo consegue imaginar. Desde então, acusados de todos os partidos recorrem a ela, sejam as acusações verdadeiras ou não. Os anos que deram nome a tudo isso estão em O que foi o macarthismo?.

Fontes

  • Arthur Miller, The Crucible (1953), ato 4
  • Arthur Miller, Timebends: A Life (1987)
  • Congressional Record, vol. 96, pp. 7894–7895 (Margaret Chase Smith, 1º de junho de 1950)
  • Miller v. United States, Tribunal de Apelação dos EUA para o Circuito do Distrito de Colúmbia (1958)
  • Stacy Schiff, The Witches: Salem, 1692 (2015)