A Guerra Fria · História

O que foi o macarthismo?

A resposta curta

Macarthismo é o nome de um método: acusar pessoas em público de ligação com o comunismo, sem provas. A palavra vem do senador Joseph McCarthy, que em 9 de fevereiro de 1950, em Wheeling, disse ter uma lista de comunistas no Departamento de Estado. Hoje designa todo o medo vermelho. Havia espiões soviéticos; as acusações dele nunca foram provadas.

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De onde vem a palavra

Quem batizou a época foi um cartunista. Em 29 de março de 1950, sete semanas depois do discurso que tornou Joseph McCarthy famoso, Herblock (Herbert Block) usou a palavra McCarthyism numa charge do Washington Post. Em português, virou macarthismo. O termo pegou porque descrevia um jeito de agir, e não só um homem: a acusação feita em público, repetida nas manchetes, com o acusado obrigado a provar a própria inocência. Hoje a palavra designa todo o medo vermelho, do fim dos anos 1940 aos anos 1950.

E quem era McCarthy? Nasceu numa fazenda do Wisconsin em 1908, foi juiz, serviu como fuzileiro naval na Segunda Guerra e chegou ao Senado em 1946. Os apoiadores viam nele um homem enfrentando uma ameaça verdadeira. Os críticos contavam as carreiras destruídas por acusações que ele nunca provou. Morreu em 1957, aos 48 anos.

Wheeling e o número que não parava de mudar

Em 9 de fevereiro de 1950, McCarthy discursou num jantar do Dia de Lincoln do clube de mulheres republicanas do condado de Ohio, em Wheeling, na Virgínia Ocidental. Ergueu uma folha de papel e disse que ali estavam os nomes de comunistas que trabalhavam no Departamento de Estado. Ninguém leu a folha. O jornal local publicou o número 205. Dois dias depois, numa carta, ele falou em 57. Em 20 de fevereiro, no plenário do Senado, descreveu 81 casos. A gravação do discurso feita por uma rádio foi apagada, e as palavras exatas se perderam.

Havia mesmo uma lista? Fosse o que fosse aquele papel, os casos saíram de arquivos do Departamento de Estado desatualizados havia anos. Mesmo assim, em poucas semanas o país inteiro sabia quem ele era.

O medo tinha motivos

Nos seis meses anteriores a Wheeling, a União Soviética testou a primeira bomba atômica, anos antes do que Washington previa. A China virou comunista. Alger Hiss, que tinha trabalhado no Departamento de Estado, foi condenado por mentir sob juramento sobre a entrega de segredos a Moscou. E o físico Klaus Fuchs confessou ter passado segredos da bomba aos soviéticos. Em junho de 1950, começou a Guerra da Coreia. A espionagem soviética existia, como os telegramas do Venona provaram depois. A lista de McCarthy era outra coisa.

Começou antes de McCarthy

O medo vermelho não nasceu em Wheeling. Em março de 1947, a Ordem Executiva 9835, do presidente Truman, criou as revisões de lealdade dos funcionários federais, que passaram milhões de servidores pelo pente-fino. Em outubro daquele ano, um comitê da Câmara foi caçar comunistas em Hollywood. Em 1949, onze dirigentes do Partido Comunista americano foram condenados com base na Lei Smith, por conspirar para defender a derrubada violenta do governo, e, em setembro de 1950, o Congresso aprovou a Lei de Segurança Interna, derrubando o veto de Truman. McCarthy deu nome a uma caçada que já estava em andamento.

O relatório Tydings e a queda

Um subcomitê do Senado presidido por Millard Tydings, democrata de Maryland, examinou as acusações e concluiu, em julho de 1950, que eram “uma fraude e uma farsa”. Pouca coisa mudou. Em novembro, Tydings perdeu a cadeira depois de uma campanha que, com ajuda da equipe de McCarthy, espalhou uma foto montada dele ao lado do líder comunista Earl Browder. A senadora Margaret Chase Smith já tinha respondido a McCarthy no plenário, em 1º de junho de 1950, com a Declaração de Consciência, mas por quatro anos quase ninguém a acompanhou.

O fim veio pela televisão. Depois das audiências Exército-McCarthy, em 1954, o Senado condenou a conduta dele por 67 votos a 22, em 2 de dezembro. As duas metades daquela história continuam lado a lado: houve espiões soviéticos, e houve vidas arruinadas por acusações que ninguém provou. O capítulo de Hollywood está em O que foi a lista negra de Hollywood?.

Fontes

  • Congressional Record, 20 de fevereiro de 1950 (os 81 casos de McCarthy) e 1º de junho de 1950
  • Relatório 2108 do Senado, 81º Congresso (subcomitê Tydings, julho de 1950)
  • Ordem Executiva 9835, de 21 de março de 1947
  • Ellen Schrecker, Many Are the Crimes: McCarthyism in America (1998)
  • David M. Oshinsky, A Conspiracy So Immense: The World of Joe McCarthy (1983)