A resposta curta
Julius Rosenberg era espião soviético; o papel de Ethel ainda é discutido. Os telegramas decifrados pelo Projeto Venona, divulgados em 1995, mostram Julius à frente de uma rede de engenheiros que passava segredos militares a Moscou. Ethel não tem codinome neles, e o irmão, cujo depoimento a condenou, admitiu em 2001 que não sabia quem datilografou as anotações.
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O processo que o júri ouviu
Julius Rosenberg, engenheiro eletricista, foi preso em Nova York em 17 de julho de 1950. A mulher dele, Ethel, foi presa menos de um mês depois. A acusação, que incluía um amigo do casal, Morton Sobell, era de conspiração para espionagem, e não de traição. O julgamento começou em 6 de março de 1951, no fórum federal da Foley Square, em Manhattan.
A testemunha principal era o irmão mais novo de Ethel, David Greenglass, mecânico do Exército que tinha trabalhado em Los Alamos e já havia confessado. Segundo ele, em janeiro de 1945, Julius cortou em dois a lateral de uma caixa de gelatina Jell-O de framboesa: o mensageiro provaria quem era trazendo a metade que faltava. Em junho de 1945, o mensageiro, Harry Gold, apareceu em Albuquerque com ela. Greenglass desenhou de novo, de memória, o molde de uma lente para a bomba e disse que a irmã datilografara as anotações dele para Moscou.
Em 29 de março de 1951, o júri condenou os três. Uma semana depois, o juiz Irving Kaufman sentenciou o casal à morte:
Considero o seu crime pior que um assassinato. O assassinato puro e simples, deliberado e premeditado, fica pequeno diante do crime que os senhores cometeram.
Kaufman culpou os dois pela Guerra da Coreia, uma tese que os historiadores não aceitam. Sobell pegou trinta anos, e Greenglass, quinze; Ruth, a mulher de Greenglass, que o ajudara, nunca foi acusada. Depois de o presidente Eisenhower negar clemência duas vezes, Julius e Ethel Rosenberg foram executados na prisão de Sing Sing em 19 de junho de 1953.
O que o Venona acrescentou
Em julho de 1995, o governo americano divulgou os telegramas do Venona, mensagens soviéticas dos anos 1940 lidas por decifradores do Exército. Julius aparece neles, primeiro como Antenna e depois como Liberal, à frente de uma rede de engenheiros que repassava segredos militares a Moscou. David e Ruth Greenglass também têm codinomes, Kalibr e Osa. Ethel não tem nenhum. Uma mensagem enviada de Nova York a Moscou em 27 de novembro de 1944 fala dela: “Sabe do trabalho do marido e do papel de METR e de NIL. Por causa da saúde delicada, não trabalha.”
Os dois lados citam essa frase. Ela mostra que Ethel sabia o que o marido fazia. Mas não lhe atribui tarefa nenhuma.
O irmão volta atrás
O que afundou Ethel foi a palavra do irmão. Em 2001, David Greenglass disse ao jornalista Sam Roberts e à rede de TV CBS que não sabia quem tinha datilografado as anotações. Contou que tinha apontado a irmã para proteger a mulher, Ruth, que talvez tivesse datilografado ela mesma as anotações.
Um memorando do FBI escrito no dia em que Julius foi preso já tratava a prisão de Ethel como um meio de fazer o marido falar. Em 2 de junho de 1953, o diretor do sistema penitenciário federal, James V. Bennett, foi a Sing Sing oferecer ao casal a vida em troca de colaboração. Nenhum dos dois aceitou.
Duas testemunhas soviéticas e um corréu
Do lado de Moscou, as testemunhas também divergem. Nas memórias que gravou em fita, publicadas em 1990, Nikita Kruschev conta ter ouvido de Stálin que os Rosenberg deram uma ajuda muito significativa para a bomba. Alexander Feklisov, o oficial da KGB que cuidava de Julius, disse em 1997 que Ethel provavelmente estava a par, mas nunca participou. Em 2008, Morton Sobell, então com 91 anos, admitiu pela primeira vez que ele e Julius tinham passado segredos militares aos soviéticos, e disse que Ethel sabia, mas não era espiã.
O que dizem os historiadores
Os historiadores concordam que Julius Rosenberg comandava uma rede de espionagem soviética, parte das redes de verdade que o Venona revelou. A maioria acrescenta que o projeto da bomba que mais pesou para Moscou veio de Klaus Fuchs, e não de Greenglass. Ainda se discute o resto: se Ethel fez mais do que saber, se a acusação contra ela se sustentaria sem o irmão e se algum dos dois devia ter morrido. Nenhum outro civil americano foi executado por espionagem na Guerra Fria. Os dois filhos do casal tinham dez e seis anos.
Fontes
- Autos do processo United States v. Rosenberg, Tribunal Federal do Distrito Sul de Nova York (1951)
- Telegramas do Venona, Agência de Segurança Nacional dos EUA (divulgados em 1995), Nova York para Moscou, 27 de novembro de 1944
- Ronald Radosh e Joyce Milton, The Rosenberg File (1983; 2ª ed. 1997)
- Sam Roberts, The Brother (2001)
- John Earl Haynes e Harvey Klehr, Venona: Decoding Soviet Espionage in America (1999)