A Guerra Fria · História

O que foi a Doutrina Truman?

A resposta curta

A Doutrina Truman foi a promessa feita por Harry Truman ao Congresso em 12 de março de 1947: os Estados Unidos iriam “apoiar os povos livres que resistem a tentativas de subjugação por minorias armadas ou por pressões externas”. Começou com 400 milhões de dólares para a Grécia e a Turquia, que a Grã-Bretanha não podia mais sustentar.

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O aviso britânico

Na sexta-feira, 21 de fevereiro de 1947, a embaixada britânica em Washington entregou duas notas ao Departamento de Estado. A Grã-Bretanha, quase falida depois da guerra e enfrentando um inverno brutal, cortaria a ajuda à Grécia e à Turquia no fim de março. Na Grécia, o governo combatia nas montanhas do norte um exército guerrilheiro liderado por comunistas. A Turquia sofria pressão soviética para dividir o controle dos estreitos entre o mar Negro e o Mediterrâneo e para ceder duas províncias do leste; Moscou argumentava que aqueles estreitos eram a única saída marítima dos portos soviéticos no mar Negro. Ou Washington assumia, ou deixava as duas para trás.

O discurso

Truman discursou numa sessão conjunta do Congresso em 12 de março. Não fingiu que o novo protegido era uma democracia exemplar: “O governo da Grécia não é perfeito”, admitiu, lembrando que ele tinha saído de uma eleição considerada justa por observadores estrangeiros. Depois ampliou o quadro, de dois países para o mundo inteiro.

Neste momento da história mundial, quase todas as nações precisam escolher entre modos de vida alternativos. Muitas vezes, a escolha não é livre.

Harry S. Truman, discurso ao Congresso, 12 de março de 1947

Um modo de vida, disse, se apoiava em instituições livres e eleições livres; o outro, “no terror e na opressão, numa imprensa e num rádio controlados, em eleições fraudadas”. Veio então a frase que virou doutrina: a política dos Estados Unidos deveria ser a de “apoiar os povos livres” que resistissem a minorias armadas ou a pressões externas. Truman pediu 400 milhões de dólares até junho de 1948, além de civis e militares americanos para fiscalizar o uso do dinheiro, e falou tanto de pobreza quanto de armas: “As sementes dos regimes totalitários são nutridas pela miséria e pela privação.”

Amplo demais? A objeção de Kennan

O Congresso aprovou a ajuda em maio de 1947, depois que senadores incluíram uma cláusula que permitia à ONU encerrá-la. Dentro do governo, George Kennan, cujo telegrama de Moscou tinha moldado a leitura que Washington fazia da União Soviética (o Longo Telegrama), criticou o texto. Aceitava ajudar a Grécia, mas achava que o discurso transformava uma decisão sobre dois países numa promessa aberta ao mundo inteiro, quando bastava firmeza em alguns pontos vitais. Nove dias depois do discurso, em 21 de março, Truman assinou a Ordem Executiva 9835, que abriu as investigações de lealdade dos servidores federais e levou a disputa para dentro de casa (o que foi o macarthismo).

A visão de Moscou, e o que veio depois

A resposta formal de Moscou veio em setembro, quando Andrei Jdanov descreveu “o campo imperialista e antidemocrático”, liderado pelos Estados Unidos, diante do “campo anti-imperialista e democrático”, liderado pela União Soviética (o Plano Marshall e os dois campos). No terreno, a guerra grega era menos soviética do que o discurso dava a entender. Testemunhas iugoslavas descreveram depois um Stálin com pouca fé na revolta grega: Milovan Djilas, um dos auxiliares mais próximos de Tito, contou que, em fevereiro de 1948, Stálin disse aos iugoslavos que o levante tinha de acabar. O principal apoio dos guerrilheiros vinha da Iugoslávia de Tito, e depois que Tito rompeu com Stálin, em 1948, e fechou a fronteira, em julho de 1949, a revolta desmoronou. O governo grego venceu naquele ano, a Turquia manteve o controle dos estreitos, e os dois países entraram na OTAN em 1952.

Fontes

  • Harry S. Truman, discurso ao Congresso dos Estados Unidos, 12 de março de 1947 (Avalon Project)
  • Ordem Executiva 9835, 21 de março de 1947
  • George F. Kennan, Memoirs, 1925–1950 (1967)
  • Milovan Djilas, Conversations with Stalin (1962)