A Guerra Fria · Textos

O que foi o Longo Telegrama de Kennan?

A resposta curta

O Longo Telegrama foi um despacho de 5 mil palavras que George Kennan mandou da embaixada americana em Moscou a Washington em 22 de fevereiro de 1946. Ele dizia que a hostilidade soviética vinha da insegurança russa e que o poder soviético, “altamente sensível à lógica da força”, podia ser contido sem guerra: a futura política de contenção.

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Por que Kennan escreveu

Em fevereiro de 1946, o Departamento de Estado pediu à embaixada em Moscou que interpretasse a linha dura dos discursos eleitorais de Stálin e de outros dirigentes naquele mês, entre eles o de Stálin em 9 de fevereiro. A resposta coube ao número dois da embaixada, George Kennan, que respondia pelo posto como encarregado de negócios e estava de cama, com febre, resfriado e dor de dente. Ditou o texto em cinco partes, o telegrama 511, e pediu desculpas de antemão por sobrecarregar o canal telegráfico. As perguntas, escreveu, eram “tão estranhas à nossa forma de pensar” que uma resposta curta simplificaria demais o problema. Em Washington, o texto passou de mesa em mesa, e o secretário da Marinha, James Forrestal, o tornou leitura obrigatória para oficiais de alto escalão.

O que ele dizia

O telegrama tem duas metades, um diagnóstico e uma receita. O diagnóstico buscava a origem da hostilidade soviética não em algo que o Ocidente tivesse feito, mas no passado russo: “No fundo da visão neurótica dos assuntos mundiais do Kremlin está o tradicional e instintivo sentimento russo de insegurança.” O marxismo, argumentava Kennan, dava aos governantes uma doutrina que justificava a ditadura em casa e a desconfiança lá fora. A receita era mais serena do que a fama sugere. O poder soviético era “impermeável à lógica da razão”, mas “altamente sensível à lógica da força”, e por isso costumava recuar diante de uma resistência firme. O problema podia ser resolvido, insistia, “sem recorrer a nenhum conflito militar generalizado”. E terminava com um aviso ao próprio lado.

Afinal, o maior perigo que pode nos atingir ao enfrentar esse problema do comunismo soviético é permitirmos que nos tornemos iguais àqueles que enfrentamos.

George F. Kennan, telegrama 511, Moscou, 22 de fevereiro de 1946 (FRUS 1946, vol. VI)

Do telegrama à contenção

A palavra contenção não aparece no telegrama. Ela só apareceu em julho de 1947, quando Kennan publicou uma versão ampliada do argumento na revista Foreign Affairs, assinada apenas “X”, defendendo uma contenção paciente e firme da expansão soviética. A ideia moldou a Doutrina Truman, o Plano Marshall e a OTAN. Kennan reclamou depois que tinha sido mal interpretado: pensava em pressão política e econômica em alguns pontos vitais, não em alianças militares pelo mundo inteiro. O colunista Walter Lippmann atacou o artigo X numa série de textos que reuniu sob o título The Cold War (de onde vem o nome). Kennan, que viveu de 1904 a 2005, foi depois embaixador em Moscou e em Belgrado e passou décadas como historiador no Instituto de Estudos Avançados de Princeton.

O espelho de Novikov

Sete meses depois, em 27 de setembro de 1946, o embaixador soviético em Washington, Nikolai Novikov, mandou a Moscou uma análise própria, escrita para o chanceler Molotov. Ela lia os Estados Unidos como Kennan lia a Rússia. Onde Kennan via um império inseguro, Novikov via o “capital monopolista” americano por trás de uma política externa “caracterizada… por uma busca pela supremacia mundial”, e apontava como prova as bases americanas muito além das fronteiras do país e a corrida armamentista. Cada autor tinha certeza de que o outro lado se preparava para a guerra. O telegrama de Novikov ficou secreto por décadas e só foi publicado quando a Guerra Fria terminava. Lidos lado a lado, os dois textos mostram cada capital enxergando nos movimentos da outra um plano de ataque (como começou a Guerra Fria).

Fontes

  • George F. Kennan, telegrama 511, Moscou, 22 de fevereiro de 1946 (FRUS 1946, vol. VI, Eastern Europe; The Soviet Union, doc. 475)
  • “X” (George F. Kennan), “The Sources of Soviet Conduct”, Foreign Affairs, julho de 1947
  • Nikolai Novikov, telegrama a Moscou, Washington, 27 de setembro de 1946
  • John Lewis Gaddis, George F. Kennan: An American Life (2011)