História do Brasil · História

O que foi o Plano Real?

A resposta curta

Foi o plano econômico que acabou com a hiperinflação brasileira em 1994. Em vez de congelar preços, teve três etapas anunciadas antes: o ajuste das contas, a URV, moeda de referência criada em 1º de março, e o real, lançado em 1º de julho. A inflação do mês caiu de 47% em junho para menos de 2% em agosto.

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Uma inflação com memória

Em 1993, o problema do país era o preço do pão. A inflação beirava os 30% ao mês. Desde 1986, o Brasil tinha tentado de tudo: o Plano Cruzado, o Bresser, o Verão e, em março de 1990, o Plano Collor, que bloqueou por 18 meses o dinheiro da poupança acima de 50 mil cruzados novos. Nenhum segurou os preços, e no caminho o país trocou de moeda várias vezes.

Em maio de 1993, o presidente Itamar Franco chamou o quarto ministro da Fazenda em sete meses, o senador Fernando Henrique Cardoso. Veio junto uma equipe de economistas, vários deles veteranos do Cruzado, entre eles Edmar Bacha, Pérsio Arida e André Lara Resende.

O diagnóstico da equipe cabia numa frase: a inflação tem memória. Todo mundo reajustava preços e salários pelo mês anterior, e a alta de ontem virava a de amanhã. Congelar não resolvia. O Cruzado, o Bresser e o Verão tinham congelado, e a inflação voltou todas as vezes.

Três passos, sem surpresa

  1. As contas. Primeiro, o ajuste fiscal, com o Fundo Social de Emergência, para arrumar o orçamento do governo.
  2. A URV. Em 1º de março de 1994, nasceu a Unidade Real de Valor, uma moeda que ninguém pegava na mão. Servia só para contar.
  3. O real. Em 1º de julho de 1994, a URV virou dinheiro, com outro nome.

Fica instituída a Unidade Real de Valor (URV), dotada de curso legal para servir exclusivamente como padrão de valor monetário […]. A URV será dotada de poder liberatório, a partir de sua emissão pelo Banco Central do Brasil, quando passará a denominar-se Real.

Lei nº 8.880, de 27 de maio de 1994, artigos 1º e 2º

Quatro meses com duas moedas

De março a junho, o brasileiro viveu com duas moedas: uma no bolso, o cruzeiro real, que perdia valor todo dia, e outra na cabeça, a URV, que não perdia. Salários, preços e contratos passaram a ser contados em URV. Nas padarias, as etiquetas mostravam dois preços, e o preço em URV quase não mudava. Em 1º de março, uma URV valia 647,50 cruzeiros reais. Em 30 de junho, 2.750.

Primeiro de julho

Na sexta-feira, 1º de julho de 1994, havia fila na porta dos bancos para trocar o dinheiro velho. Cada real valia 2.750 cruzeiros reais, o último valor da URV. As notas novas traziam bichos do Brasil, como o beija-flor da nota de um real. Quando a moeda saiu, o ministro da Fazenda já era outro: Rubens Ricupero.

O efeito apareceu logo. Em março, quando a URV começou, os preços subiram 43% no mês. Em junho, 47%. Em julho, primeiro mês do real, 6,8%. Em agosto, 1,9%. Para quem vivia de salário, o dinheiro do começo do mês ainda comprava a mesma coisa no fim dele. Nos supermercados, a maquininha de remarcar preços foi para a gaveta.

Muita gente se lembra do real como uma canetada. Não foi. Foram três passos em pouco mais de um ano, uma lei e uma medida provisória, sem congelamento e sem confisco. Quem governava o país nesses anos está em Quem foi Itamar Franco?.

Fontes

  • Lei nº 8.880, de 27 de maio de 1994, artigos 1º e 2º (a URV)
  • Medida Provisória nº 542, de 1994 (o real)
  • IBGE, série mensal do IPCA, 1994
  • Banco Central do Brasil, história do real
  • Boris Fausto, História do Brasil (1994)