A resposta curta
São o dia 15 de março no calendário romano. Os romanos marcavam cada mês com três dias fixos: as calendas, no dia 1º, as nonas e os idos, no meio do mês, que em março caíam no dia 15. Júlio César foi apunhalado nesse dia, em 44 a.C., e a data virou sinônimo de desgraça anunciada.
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Três dias fixos por mês
Os romanos não numeravam os dias do mês de 1 a 31. Contavam em direção a três marcos. As calendas, Kalendae, eram o primeiro dia. As nonas, Nonae, caíam no dia 5, e os idos, Idus, no dia 13. Em quatro meses, março, maio, julho e outubro, nonas e idos vinham dois dias depois, no dia 7 e no dia 15. Por isso os Idos de Março são o 15 de março.
Os outros dias eram contados de trás para a frente, até o marco seguinte, incluindo as duas pontas. O dia 14 de março era pridie Idus Martias, a véspera dos Idos de Março. O dia 12 era o quarto dia antes dos idos: 12, 13, 14 e 15. Passados os idos, a contagem seguia rumo às calendas de abril. As nonas ganharam o nome do mesmo jeito: eram o nono dia antes dos idos, contando os dois extremos.
Por que o meio do mês
Os marcos vêm de um calendário antigo que seguia a lua: as calendas chegavam com a lua nova, as nonas com o quarto crescente, os idos com a lua cheia. Um sacerdote menor vigiava o céu e, ao ver a lua nova, anunciava em voz alta quantos dias faltavam para as nonas. De calare, “chamar”, veio Kalendae. E das calendas veio a palavra calendário, por meio dos livros em que os romanos anotavam as dívidas que venciam no primeiro dia do mês. Já a origem de Idus intrigava os próprios antigos. Macróbio, no século V d.C., ligou a palavra a um verbo etrusco que significaria “dividir”: o dia que parte o mês ao meio.
Todos os idos eram de Júpiter. O sacerdote do deus levava uma ovelha, a ovis Idulis, até a cidadela do Capitólio para o sacrifício. Os Idos de Março tinham ainda uma festa própria, a de Ana Perena, deusa do ano. O povo fazia piquenique à beira do Tibre e, conta Ovídio, cada um bebia tantas taças quantos anos queria viver. Março já tinha sido o primeiro mês do ano, e de 222 a 154 a.C. os cônsules tomavam posse justamente nos Idos de Março.
“Cuidado com os Idos de Março”
Suetônio conta o aviso. Durante um sacrifício, o adivinho Espurina, um arúspice, que lia o futuro nas entranhas dos animais, disse a César que tomasse cuidado com um perigo que viria até os Idos de Março. No próprio dia, a caminho do Senado, César cruzou com ele e brincou: os idos tinham chegado e ele continuava inteiro. Chegaram, respondeu Espurina, mas ainda não passaram. Plutarco conta a mesma conversa sem dar o nome do adivinho.
Shakespeare transformou a cena numa frase. Na peça Júlio César, de 1599, um adivinho grita do meio da multidão, “Beware the ides of March”, que no Brasil virou “Cuidado com os Idos de Março”. César o despreza como um sonhador. No terceiro ato os dois se reencontram, e a troca de palavras de Suetônio volta quase igual.
O que aconteceu naquele dia
Naquele mesmo dia, senadores liderados por Bruto e Cássio mataram César a punhaladas no salão ao lado do teatro de Pompeu (como Júlio César morreu). Os assassinos tinham orgulho da data. Bruto a gravou nas suas moedas de prata, abreviada EID MAR, entre dois punhais.
A expressão hoje
Desde então, os Idos de Março querem dizer o dia do acerto de contas, um prazo que parece inofensivo até chegar, e todo 15 de março alguma manchete lembra deles. As calendas também deixaram a sua marca no português. Suetônio conta que Augusto, falando de quem nunca ia pagar uma dívida, costumava dizer que pagaria nas calendas gregas. O calendário grego não tinha calendas. Daí o nosso “deixar para as calendas gregas”: adiar para nunca.
Fontes
- Varrão, Sobre a língua latina 6.27–28
- Macróbio, Saturnais 1.15 (calendas, nonas e idos)
- Ovídio, Fastos 3.523–542 (Ana Perena)
- Suetônio, Vida de Júlio César 81 e Vida de Augusto 87; Plutarco, Vida de César 63
- William Shakespeare, Júlio César, ato 1, cena 2, e ato 3, cena 1 (1599)