A resposta curta
Quase certamente não. “Até tu, Brutus?” vem da peça Júlio César, de Shakespeare, escrita em 1599. O biógrafo romano Suetônio diz que César morreu sem dizer nada, só com um gemido no primeiro golpe. Ele acrescenta um boato de que César teria dito a Bruto, em grego, “Você também, meu filho?”. Até isso Suetônio trata como fofoca.
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O que dizem as fontes antigas
César foi morto em 15 de março de 44 a.C., os Idos de Março, por senadores liderados por Cássio e Marco Bruto. Os dois tinham sido perdoados por César depois da guerra civil. O relato mais completo é o de Suetônio, que escreveu a vida de César cerca de um século e meio depois.
E assim recebeu vinte e três punhaladas, sem dizer palavra, apenas um gemido ao primeiro golpe, embora alguns tenham escrito que, quando Marco Bruto avançou sobre ele, disse em grego: “Você também, meu filho?”
Repare no que Suetônio prefere: o silêncio. As palavras gregas, kai su, teknon, “você também, filho”, são só algo que “alguns escreveram”. Plutarco, o outro grande biógrafo antigo, conta que César lutou até ver Bruto entre os punhais, e então cobriu a cabeça com a toga e parou de resistir. Nenhum escritor antigo põe na boca dele as palavras latinas Et tu, Brute.
De onde vem “Até tu, Brutus?”
Não de Roma. William Shakespeare colocou a frase na boca de César na peça Júlio César, encenada pela primeira vez em 1599: “Et tu, Brute? Então cai, César!” Ele aproveitou uma frase latina que já circulava no teatro inglês. A fala de Shakespeare era tão boa que tomou o lugar da história. Em português ela virou “Até tu, Brutus?”, o jeito clássico de acusar um amigo de traição, com o nome em latim, Brutus, em vez do português Bruto.
O que “meu filho” pode significar
Se César disse mesmo “Você também, filho?”, o que quis dizer? Alguns leitores entenderam ao pé da letra, porque César teve um caso com a mãe de Bruto, Servília, e a fofoca antiga se perguntava se Bruto era filho dele. A maioria dos historiadores duvida; César tinha uns quinze anos quando Bruto nasceu. Outros ouvem uma praga em vez de um lamento: uma expressão grega no sentido de “você também vai ter o seu, garoto”. De um jeito ou de outro, é o boato de um boato.
Como foi o assassinato de verdade
Naquele dia o Senado não se reuniu no Fórum, mas num salão ao lado do teatro de Pompeu, no Campo de Marte. As ruínas estão hoje no Largo di Torre Argentina, uma praça rebaixada em Roma famosa pelos gatos; Shakespeare levou a cena para o Capitólio. Ao entrar, César provocou o adivinho Espurina: os Idos de Março chegaram. Sim, disse Espurina, mas ainda não passaram. Lá dentro, Tílio Cimbro agarrou a toga de César e Casca deu o primeiro golpe. César caiu aos pés da estátua de Pompeu com vinte e três ferimentos.
Os assassinos acabaram com um homem, não com o sistema que o criou. O herdeiro dele, Otaviano, de dezoito anos, os derrotaria em Filipos, em 42 a.C., e se tornaria Augusto, o primeiro imperador, em 27 a.C.
Fontes
- Suetônio, Vida de Júlio César 80–82
- Plutarco, Vida de César 66 e Vida de Bruto 17
- Cássio Dio, História Romana 44.19
- William Shakespeare, Júlio César, ato 3, cena 1 (1599)