A resposta curta
Não existe um motivo só; um historiador contou 210 causas propostas. As principais: cinquenta anos de guerra civil depois de 235 d.C., um império dividido entre Oriente e Ocidente, godos e vândalos empurrados pelos hunos e a perda dos impostos e do trigo do norte da África. O Ocidente acabou em 476. O Oriente durou até 1453.
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Primeiro: qual Roma caiu?
Quando se pergunta por que Roma caiu, geralmente se fala da metade ocidental do império, que acabou em 476 d.C. Mas o Império Romano estava dividido de vez desde 395, quando o imperador Teodósio morreu e os dois filhos pequenos repartiram o território. A metade oriental, governada de Constantinopla, a atual Istambul, continuou se chamando romana e durou quase mais mil anos, até 1453.
A longa descida no Ocidente
As causas se acumulam ao longo de dois séculos:
- Guerra civil. De 235 a 284, o exército fez e matou imperadores, mais de vinte em cinquenta anos, enquanto a Pérsia e os godos atacavam. Em 260, o imperador Valeriano foi capturado vivo pelos persas. Em 271, o império tinha rachado em três.
- Um império dividido. Diocleciano repartiu o poder entre quatro governantes em 293, e depois de 395 Oriente e Ocidente seguiram caminhos próprios. O Oriente, mais rico, nem sempre podia, ou queria, salvar o Ocidente.
- Migrações e os hunos. Por volta de 370, os hunos saíram das estepes e empurraram os godos até o Danúbio. Roma os deixou entrar e depois os maltratou. Em 378, eles mataram o imperador Valente em Adrianópolis. Em 410, os godos de Alarico saquearam a própria Roma.
- Dinheiro. Em 439, os vândalos tomaram Cartago e o norte da África, o celeiro do Ocidente e os seus contribuintes mais ricos. Sem esse dinheiro, o Ocidente não conseguia pagar os exércitos, cada vez mais formados por soldados germânicos sob generais que faziam e desfaziam imperadores.
O fim que ninguém notou
O último imperador na Itália era um adolescente cujo nome resume a história toda: Rômulo Augusto, apelidado de Augústulo, o “pequeno Augusto”. Em 476, os soldados bárbaros na Itália exigiram terras. O seu oficial, Odoacro, prometeu dá-las, tomou Ravena em 4 de setembro e aposentou o menino numa vila perto de Nápoles, com pensão. Odoacro não se fez imperador. Mandou as insígnias imperiais para Constantinopla e governou a Itália como rei, mantendo o Senado e o direito romano.
Assim o Império Romano do Ocidente, que Otaviano Augusto, o primeiro dos Augustos, começou a governar no ano setecentos e nove da fundação da cidade, pereceu com este Augústulo.
Em 5 de setembro de 476, quase nada mudou. Os romanos da Itália continuaram pagando impostos, indo aos tribunais e nomeando cônsules todo ano. Só escritores posteriores decidiram que 476 tinha sido o fim.
Declínio ou transformação?
Os historiadores ainda discutem. Edward Gibbon, no século XVIII, viu “o triunfo da barbárie e da religião”. Peter Brown vê um mundo novo e criativo, a Antiguidade Tardia. Bryan Ward-Perkins conta cerâmicas mais grosseiras e gado menor, e vê o padrão de vida desabar. As duas coisas podem ser verdade. O certo é o quanto sobreviveu: o português, o espanhol, o francês, o italiano e o romeno descendem do latim; o direito romano molda os códigos de quase toda a Europa e a América Latina, incluindo o Brasil; e o calendário na sua parede é o de César, com meses que levam o nome dele e de Augusto.
Fontes
- Amiano Marcelino, História Romana 31 (Adrianópolis, 378)
- Jerônimo, Carta 127.12 (o saque de 410)
- Jordanes, Getica 46.243; Anônimo Valesiano 8.37–38 (476)
- Edward Gibbon, História do Declínio e Queda do Império Romano (1776–1789)
- Alexander Demandt, Der Fall Roms (1984); Peter Brown, The World of Late Antiquity (1971); Bryan Ward-Perkins, The Fall of Rome and the End of Civilization (2005)