Roma Antiga · Mitos

O Concílio de Niceia escolheu os livros da Bíblia?

A resposta curta

Não. Nenhum registro do Concílio de Niceia, em 325, menciona qualquer debate sobre quais livros entram na Bíblia. Os bispos escreveram um credo sobre Cristo e regras para a igreja. O Novo Testamento se formou ao longo de séculos de uso, e a primeira lista conhecida com exatamente os seus 27 livros é de Atanásio, em 367.

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O que Niceia decidiu, e o que não decidiu

Em 325, Constantino reuniu cerca de trezentos bispos em Niceia, hoje İznik, na Turquia, para resolver uma questão: Cristo foi criado, ou é plenamente Deus como o Pai? O que eles produziram sobreviveu. Um credo. Uma decisão para que todas as igrejas celebrassem a Páscoa no mesmo dia. Vinte cânones curtos de disciplina, sobre a ordenação de bispos, a volta de cristãos que tinham renegado a fé e a posição de grandes sés como Alexandria. Nada disso lista os livros da Bíblia, e nenhum relato antigo do concílio diz que o assunto foi discutido. A história do concílio em si está em o que foi o Concílio de Niceia.

De onde vem o mito

A ideia tem raízes antigas. Jerônimo, no prefácio da sua tradução latina do livro de Judite, escreveu que o Concílio de Niceia teria contado Judite entre as Escrituras. Nenhum cânone ou registro de Niceia fala de Judite, e os estudiosos duvidam que o comentário indique alguma votação sobre uma lista.

Uma lenda posterior foi bem mais longe. O Synodicon Vetus, um relato grego sobre os concílios escrito em 887, conta que os bispos puseram todos os livros em disputa sobre um altar e deixaram um milagre separar os verdadeiros dos falsos. No século XVIII, Voltaire espalhou a história para zombar da igreja. Em 2003, o romance O Código Da Vinci, de Dan Brown, pôs na boca de um personagem que Constantino encomendou uma nova Bíblia e que a divindade de Jesus venceu em Niceia por pouca diferença. Não foi por pouco. Só dois bispos se recusaram a assinar o credo.

O que Constantino fez de fato com Bíblias

Há um fundo de verdade em “Constantino fez a Bíblia”. Por volta de 331, ele pediu a Eusébio, bispo de Cesareia, cinquenta cópias das Escrituras em pergaminho fino para as novas igrejas de Constantinopla, pagas pelo imperador (Vida de Constantino 4.36). Ele estava comprando livros, não escolhendo quais. Nem sabemos se essas cópias tinham os dois Testamentos ou só o Novo.

Como o cânone se formou de verdade

A Bíblia cristã cresceu de baixo para cima, pela leitura no culto, ao longo de uns três séculos:

  • As Escrituras judaicas. Os primeiros cristãos já tinham uma Bíblia, a Lei, os Profetas e os Escritos, lidos sobretudo na Septuaginta grega.
  • Por volta de 180. Irineu de Lyon afirma que os Evangelhos são quatro, nem mais nem menos, como os quatro ventos (Contra as heresias 3.11.8).
  • Nos anos em torno de Niceia. Eusébio, que esteve no concílio, divide os livros em aceitos, discutidos e rejeitados. Tiago, Judas, 2 Pedro e 2 e 3 João ainda são discutidos, e ele hesita sobre o Apocalipse (História Eclesiástica 3.25).
  • 367. Atanásio de Alexandria, na sua carta anual de Páscoa, lista os 27 livros do Novo Testamento de hoje, a primeira lista assim que se conhece.
  • 393 e 397. Concílios regionais em Hipona e Cartago, no norte da África, confirmam o mesmo Novo Testamento.

Eusébio é a melhor testemunha de que Niceia não resolveu nada nesse ponto. Ele estava lá e, mesmo assim, continuou chamando cinco cartas de discutidas. O processo foi lento, local e moldado pelo uso, não por ordem de um imperador.

As igrejas ainda divergem hoje. As Bíblias protestantes têm 66 livros. As católicas têm 73, lista definida pelo Concílio de Trento em 1546. A Igreja Ortodoxa Etíope guarda um cânone mais amplo, com 1 Enoque e Jubileus. Cada lista tem a sua história, e nenhuma começou em Niceia.

Fontes

  • Eusébio, Vida de Constantino 3.6–14 e 4.36
  • Eusébio, História Eclesiástica 3.25
  • Irineu, Contra as heresias 3.11.8
  • Atanásio, Carta Festal 39 (367)
  • Jerônimo, Prefácio a Judite
  • Bruce M. Metzger, The Canon of the New Testament (1987)