Roma Antiga · História

Aníbal atravessou mesmo os Alpes com elefantes?

A resposta curta

Sim. Em 218 a.C., Aníbal saiu de Nova Cartago, na Espanha, com talvez 90 mil homens e 37 elefantes. Eles cruzaram o rio Ródano em balsas cobertas de terra e os Alpes em cerca de quinze dias. A maioria dos elefantes parece ter sobrevivido às montanhas, mas quase todos morreram no inverno frio que veio depois.

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A marcha

Aníbal era o general de Cartago, a grande potência marítima do norte da África, na atual Tunísia. Aos nove anos, tinha jurado num altar nunca ser amigo de Roma. Em 219 a.C., cercou a cidade espanhola de Sagunto, aliada de Roma, e começou a Segunda Guerra Púnica. Então, em vez de esperar que Roma viesse até ele, decidiu levar a guerra à Itália por terra.

Na primavera de 218 a.C., saiu de Nova Cartago, a atual Cartagena, com talvez 90 mil homens, milhares de cavalos e 37 elefantes. Atravessou o Ebro, os Pireneus rumo ao que hoje é a França, e seguiu até o largo rio Ródano.

Como atravessar um rio com elefantes?

O historiador grego Políbio, que diz ter interrogado homens que estiveram lá e percorrido o caminho ele mesmo, descreve a solução. Os engenheiros de Aníbal construíram grandes balsas, amarraram umas às outras e as cobriram de terra, para que a água parecesse chão firme. As elefantas foram levadas primeiro, e os outros as seguiram. Alguns entraram em pânico e caíram na água, mas conseguiram atravessar.

Quinze dias nos Alpes

A travessia dos Alpes levou cerca de quinze dias, já no fim da estação. Tribos das montanhas rolavam pedras sobre a coluna. A neve nova escondia o gelo velho, e cavalos e animais de carga escorregavam para os desfiladeiros. Tito Lívio conta que Aníbal partiu uma rocha que bloqueava o caminho aquecendo-a com fogo e jogando vinho azedo; pode ser lenda. Perto do topo, ele mostrou ao exército congelado as planícies da Itália lá embaixo. Desceu com cerca de 26 mil homens.

Qual passo ele usou? Ninguém sabe ao certo. Os estudiosos preferem o Pequeno São Bernardo, o Mont Cenis, o Col de Clapier ou o alto Col de la Traversette, onde cientistas acharam uma camada revolvida de esterco de cavalo antigo. Todos ficam na fronteira atual entre a França e a Itália.

O que aconteceu com os elefantes

Os elefantes lutaram no rio Trébia, em dezembro de 218 a.C., onde Aníbal esmagou um exército romano. O inverno seguinte matou quase todos. Políbio diz que só um sobreviveu. Tito Lívio descreve depois o próprio Aníbal montado no último elefante, atravessando os pântanos alagados do Arno, doente de uma infecção que lhe custou a visão de um olho.

Provavelmente eram elefantes-da-floresta do norte da África, uma variedade menor, hoje extinta. Plínio, citando Catão, lembra pelo nome o elefante mais valente do exército cartaginês: Surus, “o Sírio”, o que levou alguns a pensar que fosse um elefante asiático.

Os elefantes fizeram a lenda, mas não foram eles que venceram. Aníbal ainda destruiu exércitos romanos no lago Trasimeno e em Canas e ficou quinze anos na Itália. Roma não se dobrou e, em 202 a.C., em Zama, finalmente o derrotou, depois que Cipião deixou corredores nas suas linhas para os novos elefantes de Aníbal passarem sem fazer estrago.

Fontes

  • Políbio, Histórias 3.42–56 (3.48 sobre a sua visita) e 3.74
  • Tito Lívio, História de Roma 21.32–38 e 22.2
  • Plínio, o Velho, História Natural 8.11 (Surus)
  • W. C. Mahaney e outros, “Biostratigraphic evidence relating to the age-old question of Hannibal’s invasion of Italy”, Archaeometry (2017)