A resposta curta
Noé, Noach em hebraico, soa como a palavra hebraica para descanso. Quando o pai, Lameque, dá o nome ao menino em Gênesis 5:29, ele explica com um jogo de sons: “Este nos consolará em nosso trabalho.” Descanso e consolo voltam em toda a história do Dilúvio, até a arca repousar e Deus sentir um aroma agradável.
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O que Lameque disse
O nome de Noé fecha a longa genealogia de Gênesis 5. O pai, Lameque, é um lavrador que trabalha uma terra amaldiçoada desde o Éden, quando Deus disse a Adão: “maldita é a terra por sua causa” (Gênesis 3:17). Quando o menino nasce, Lameque lhe dá um nome e, junto, uma esperança.
Ele o chamou de Noé, dizendo: “Este nos consolará em nosso trabalho e na fadiga de nossas mãos, causados pela terra que o SENHOR amaldiçoou.”
Em hebraico o nome é Noach, escrito com duas letras só, nun e chet. Soa como nuach, descansar, pousar, sossegar. O verbo de Lameque, yenachamenu, “ele nos consolará”, começa com os mesmos sons, mas vem de outra raiz. É típico dos nomes bíblicos: a explicação vai pelo som, não pela gramática, como acontece com Israel e Moisés. A Septuaginta, a antiga tradução grega, aproxima as duas coisas: nela, Lameque diz que o menino vai lhes dar descanso.
Um refrão escondido no Dilúvio
Quem aprende a ouvir o n e o ch passa a encontrá-los a cada página da história.
- Arrependimento. “O SENHOR se arrependeu de ter feito o homem na terra” (6:6). O verbo hebraico vem da mesma raiz do “consolará” de Lameque. O pai esperava consolo; Deus sente tristeza.
- Favor. “Mas Noé encontrou favor aos olhos do SENHOR” (6:8). Favor, em hebraico, é chen: as duas letras de Noach ao contrário.
- Repouso. A arca “repousou” sobre os montes de Ararate (8:4), com o mesmo verbo que está por trás do nome.
- Lugar para pousar. Na primeira saída, a pomba “não encontrou lugar para pousar o pé” (8:9), em hebraico manoach.
- O aroma. Depois do Dilúvio, “o SENHOR sentiu o aroma agradável” da oferta de Noé (8:21). O hebraico diz reach hannichoach, um cheiro que acalma.
Lido assim, o nome resume a trama: um mundo sem sossego, uma arca que encontra repouso e um Deus que se acalma.
O consolo veio?
Lameque esperava que o filho aliviasse a maldição da terra. Depois do Dilúvio, Deus promete: “Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem” (8:21). E Noé vira o primeiro homem da Bíblia a plantar uma vinha (9:20). Há quem veja o desejo do pai cumprido no vinho, “o vinho que alegra o coração do homem” (Salmos 104:15). Gênesis não deixa a cena bonita por muito tempo: a vinha termina com Noé bêbado na tenda e uma maldição sobre o neto, Canaã (9:21–25).
O nome ficou como sinônimo de justo num mundo perdido. Ezequiel cita juntos “Noé, Daniel e Jó” (Ezequiel 14:14), Isaías fala das “águas de Noé” (Isaías 54:9), e a Carta aos Hebreus diz que, pela fé, Noé “preparou uma arca para a salvação de sua família” (Hebreus 11:7).
O nome em português
Do hebraico Noach vieram o grego e o latim Noe, e daí o nosso Noé. Em árabe ele é Nuh, e a sura 71 do Alcorão leva o nome dele. No Brasil, o nome entrou no vocabulário: “arca de Noé” virou jeito de falar de um lugar cheio de bichos ou de gente de todo tipo, e Vinicius de Moraes deu esse título aos poemas infantis que viraram o disco A Arca de Noé, de 1980. Já a forma inglesa, Noah, foi o nome mais dado a meninos nos Estados Unidos de 2013 a 2016.
Um cuidado: entre as cinco filhas de Zelofeade, em Números 26:33, há uma mulher chamada Noa. Em inglês ela também aparece como Noah, mas em hebraico é outro nome, escrito com outra letra, sem relação com o Dilúvio.
Fontes
- Gênesis 3:17; 5:28–32; 6:6–9; 8:4–21; 9:20–25
- Números 26:33; Salmos 104:15; Isaías 54:9; Ezequiel 14:14; Hebreus 11:7
- Septuaginta, Gênesis 5:29
- Alcorão, sura 71 (Nuh)
- Vinicius de Moraes, A Arca de Noé (disco, 1980)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.