História do Brasil · Expressões

O que significa “o povo assistiu bestializado”?

A resposta curta

Quer dizer que o povo do Rio viu a queda do Império atônito, sem entender o que acontecia. A frase é de Aristides Lobo, republicano e ministro do governo provisório, numa carta publicada no Diário Popular em 18 de novembro de 1889. Para os historiadores, era surpresa, não burrice: quase ninguém votava, e o povo estava de fora.

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Quem escreveu a frase

Aristides Lobo não era um monarquista ressentido. Era republicano de primeira hora, um dos signatários do Manifesto Republicano de 1870, e virou ministro do Interior do governo provisório. No calor dos acontecimentos, mandou uma carta ao Diário Popular, de São Paulo, que saiu no dia 18 de novembro:

O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.

Aristides Lobo, carta ao Diário Popular (São Paulo), publicada em 18 de novembro de 1889

Na mesma carta, ele conta que muita gente achou que estava vendo uma parada. A frase ficou mais famosa do que o próprio dia.

O que quer dizer “bestializado”

Não é “virar bicho”. É o sentido de “ficar besta”, que o brasileiro usa até hoje: ficar pasmo, de boca aberta, sem reação. Lobo empilha três palavras para a mesma coisa, bestializado, atônito, surpreso, e fecha com uma quarta ideia: ninguém sabia o que aquilo significava.

Não era para menos. A queda do Império foi um movimento de quartel, feito numa manhã, sem aviso ao público. Muitos dos soldados que marcharam até o Campo de Santana achavam que iam enfrentar a polícia, não derrubar a monarquia. Se nem a tropa sabia, como o vendedor de rua saberia?

Com o tempo, a frase mudou de sentido. Virou retrato de um povo apático, que não liga para política e deixa tudo acontecer. É assim que ela costuma aparecer em sala de aula e em discurso.

Surpresa, não apatia

Os historiadores fazem outra leitura. Maria Tereza Chaves de Mello mostra que Lobo falava de surpresa, não de indiferença. José Murilo de Carvalho lembra um dado mais duro: depois da reforma eleitoral de 1881, a Lei Saraiva, só cerca de 0,8% da população votou em 1886. Quem não vota não é chamado a decidir nada. O povo não era tolo. Estava de fora.

A República mudou pouco nisso no começo. A Constituição de 1891 acabou com a exigência de renda para votar, mas deixou longe das urnas os analfabetos, que eram a maioria do país.

Os bestializados de José Murilo de Carvalho

Em 1987, Carvalho pôs a palavra no título de um livro: Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. Ele mostra que a população do Rio tinha jeitos próprios de agir, longe das urnas: festas, associações, protestos, como a Revolta da Vacina, de 1904. Para Carvalho, essa gente sabia muito bem que a política oficial não tinha sido feita para ela.

Onde você já ouviu isso

A frase volta toda vez que alguém quer dizer que o brasileiro assiste a tudo de longe. Agora você conhece a história inteira: quem a escreveu era um republicano, no dia em que a República nasceu, e o que ele descreveu foi espanto. Como foi a manhã que espantou o Rio está em Quem proclamou a República?, e as razões da queda, em Por que a monarquia caiu no Brasil?

Fontes

  • Aristides Lobo, carta ao Diário Popular, São Paulo, publicada em 18 de novembro de 1889
  • José Murilo de Carvalho, Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi (1987)
  • José Murilo de Carvalho, Cidadania no Brasil: o longo caminho (2001)
  • Maria Tereza Chaves de Mello, A república consentida (2007)