A resposta curta
Porque perdeu, um a um, os apoios que a sustentavam. A Igreja ficou ressentida quando dois bispos foram condenados à prisão, em 1874. O exército voltou do Paraguai magoado com os políticos. Os fazendeiros se afastaram com a Lei Áurea, de 1888, que não os indenizou. Em 15 de novembro de 1889, quase ninguém defendeu o Império.
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Em 1870, uma ideia de poucos
Em 3 de dezembro de 1870, o primeiro número do jornal A República, no Rio, trouxe um manifesto redigido por Quintino Bocaiúva e assinado por quase sessenta homens, na maioria advogados, médicos, comerciantes e jornalistas. Pediam federação e o fim da monarquia. O Brasil era um império cercado de repúblicas na América do Sul, e uma frase dizia isso sem rodeios:
Somos da América e queremos ser americanos.
A escravidão quase não aparecia no texto. Em 1873, fazendeiros do oeste paulista fundaram em Itu o Partido Republicano Paulista. Era a nova elite do café, rica e com pouca voz no Rio, que queria decidir os próprios impostos. A república ganhava patrocinadores, mas ainda não tinha força para derrubar ninguém. A força veio de três rupturas.
A Igreja e o exército
No Império, o catolicismo era a religião oficial, e nem ordem do papa valia no Brasil sem o aval do imperador. Em 1872, os bispos Dom Vital, de Olinda, e Dom Macedo Costa, do Pará, puniram irmandades ligadas à maçonaria. O governo ficou do lado das irmandades e, em 1874, os dois bispos foram condenados à prisão. Saíram anistiados no ano seguinte, mas a Igreja não esqueceu.
O exército voltou da Guerra do Paraguai com prestígio e uma mágoa: tinha dado o sangue enquanto os políticos discutiam no Rio. Na Escola Militar da Praia Vermelha, o professor Benjamin Constant ensinava o positivismo de Auguste Comte. Entre 1883 e 1887, na chamada Questão Militar, oficiais punidos por escrever nos jornais enfrentaram os ministros civis. O marechal Deodoro da Fonseca tomou o partido deles e, em 1887, virou presidente do recém-criado Clube Militar. No mesmo ano, o clube pediu à princesa regente que o exército não fosse usado para caçar escravizados fugidos.
Os fazendeiros e o medo do terceiro reinado
A monarquia garantia a ordem e a escravidão de que as fazendas de café dependiam. Em 13 de maio de 1888, com o imperador doente na Europa, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea: dois artigos e nenhuma indenização, nem aos senhores nem aos libertos. Muitos senhores do Vale do Paraíba, a velha base do trono, viraram republicanos da noite para o dia. Ganharam um apelido: “republicanos de 14 de maio”.
Havia ainda o futuro. Pedro II voltou da Europa em agosto de 1888, abatido, aos 62 anos. A herdeira era Isabel, católica fervorosa, casada com um príncipe francês, o impopular conde d’Eu. Para boa parte da elite, um terceiro reinado assustava mais do que uma república.
O que pesou mais
Os historiadores discordam. Celso Castro põe no centro do movimento os jovens oficiais formados na Praia Vermelha. Outros, como Emília Viotti da Costa, olham primeiro para as mudanças na economia do café e para fazendeiros que já não precisavam da Coroa. O desfecho, ninguém discute: na manhã de 15 de novembro de 1889, os soldados do governo não atiraram, e o Império caiu em um dia. Como foi esse dia está em Quem proclamou a República?
E o baile da Ilha Fiscal?
Seis dias antes, em 9 de novembro, o governo deu um baile na Ilha Fiscal, na baía de Guanabara, para os oficiais do encouraçado chileno Almirante Cochrane. Foram entre 3 mil e 4,5 mil convidados, e o cardápio dizia “Homenagem ao Chile”. Não foi despedida nem causa da queda. O nome “último baile” veio depois, com a República e o quadro de Aurélio de Figueiredo, de 1905. Na mesma noite, o Clube Militar se reunia sob a presidência de Benjamin Constant.
Fontes
- Manifesto Republicano, A República, Rio de Janeiro, 3 de dezembro de 1870
- Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888 (Lei Áurea)
- Cardápio do baile da Ilha Fiscal, “Homenagem ao Chile”, 9 de novembro de 1889, Arquivo Nacional
- Celso Castro, Os militares e a República (1995)
- Emília Viotti da Costa, Da Monarquia à República: momentos decisivos (1977)