A Bíblia · Expressões

O que significa ‘quem não tiver pecado que atire a primeira pedra’?

A resposta curta

Significa que só quem não tem pecado tem direito de condenar o outro. Jesus diz isso em João 8:7, quando escribas e fariseus trazem uma mulher pega em adultério e perguntam se ela deve ser apedrejada. Os acusadores vão embora um por um, a começar pelos mais velhos. Então ele diz a ela: “Eu também não a condeno.”

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A cena no Templo

João põe a cena de madrugada, no pátio do Templo, onde Jesus está sentado ensinando o povo. Alguns escribas e fariseus abrem caminho com uma mulher e a colocam no meio de todos.

Mestre, encontramos esta mulher em adultério, no próprio ato. Ora, em nossa lei, Moisés nos ordenou apedrejar tais mulheres. O que, então, você diz sobre ela?

João 8:4–5

João diz com todas as letras que é um teste, “para que tivessem do que o acusar” (João 8:6). E bem armado. Se Jesus disser “apedrejem”, passa por cima de Roma, que segundo a maioria dos historiadores guardava para si a pena de morte; no julgamento de Jesus, os próprios acusadores dizem a Pilatos: “A nós não é lícito matar ninguém” (João 18:31). Se disser “soltem”, fica contra Moisés.

Falta alguém

A lei que eles citam fala de duas pessoas: “o adúltero e a adúltera certamente serão mortos” (Levítico 20:10; também Deuteronômio 22:22). A mulher foi pega “no próprio ato”, então o homem estava lá. Ele não aparece na cena. Jesus não toca no assunto. Inclina-se e escreve no chão com o dedo. O que ele escreveu, ninguém sabe. Uns imaginam os pecados dos acusadores; outros pensam em Jeremias, onde os que abandonam a Deus “serão escritos na terra” (Jeremias 17:13).

Por que a primeira pedra

Como eles continuam insistindo, ele se levanta.

Quem de vocês estiver sem pecado seja o primeiro a atirar uma pedra nela.

João 8:7

A frase ecoa a própria lei do apedrejamento. Moisés exigia pelo menos duas testemunhas, e cabia a elas começar a execução.

As mãos das testemunhas serão as primeiras contra ele para matá-lo, e depois as mãos de todo o povo.

Deuteronômio 17:7

Jesus não revoga a lei. Pergunta quem tem condição de ir primeiro. Ninguém tem. Eles saem “um por um, começando pelos mais velhos” (João 8:9), até ele ficar sozinho com a mulher, ainda de pé no meio do pátio. Mais tarde, a própria lei judaica passou a desconfiar das execuções: a Mishná chama de destruidor o tribunal que condena uma pessoa à morte em sete anos (Makot 1:10).

“Vai e não peques mais”

“Mulher, onde estão os seus acusadores? Ninguém a condenou?” “Ninguém, Senhor.” “Eu também não a condeno. Siga o seu caminho. De agora em diante, não peque mais” (João 8:10–11). Ele recusa as pedras e também a desculpa. A forma que muito brasileiro sabe de cor, vai e não peques mais, vem das traduções antigas, no tratamento de tu. E o ditado ganhou vida própria: “quem nunca errou que atire a primeira pedra” serve para calar quem aponta o dedo para os outros e esquece os próprios erros.

Uma história sem lugar fixo

Quase toda Bíblia traz uma nota de rodapé neste ponto. As cópias mais antigas de João, dois papiros de cerca de 200 d.C. e os grandes códices do século IV, não têm essa história. O manuscrito grego mais antigo que a traz é o Códice de Beza, de cerca de 400 d.C., e cópias posteriores a colocam depois de João 7:52, em outro ponto de João ou em Lucas. Muitos estudiosos acham que é uma história antiga que só ganhou um lugar no Evangelho mais tarde. No começo do século II, Papias já conhecia a história de uma mulher acusada de muitos pecados diante do Senhor, e Jerônimo a manteve na tradução latina dele. A maioria das Bíblias a imprime hoje, muitas vezes entre colchetes.

Fontes

  • João 7:53–8:11; 18:31
  • Levítico 20:10; Deuteronômio 17:6–7; 22:22; Jeremias 17:13
  • Mishná, Makot 1:10
  • Papiros 66 e 75; Códice Sinaítico; Códice Vaticano; Códice de Beza
  • Papias, citado por Eusébio, História Eclesiástica 3.39.17

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.