A resposta curta
Uma mulher da cidade de Sicar, em Samaria, que Jesus encontra no poço de Jacó, em João 4. João não diz o nome dela. Ela teve cinco maridos, discute com Jesus sobre onde adorar a Deus e leva a cidade inteira para ouvi-lo. A tradição ortodoxa a chama de Fotini, “a iluminada”, e a venera como igual aos apóstolos.
Revisado em
O que João conta
Ela aparece num único capítulo, João 4, e João nunca diz o nome dela. Jesus está indo da Judeia para a Galileia e passa por Samaria. Perto de uma cidade chamada Sicar, junto ao poço que fica no terreno que Jacó deu ao filho José, ele se senta, cansado da viagem. É por volta da hora sexta, meio-dia, e os discípulos foram à cidade comprar comida. Uma samaritana chega com o cântaro, e ele diz: “Dê-me de beber” (João 4:7).
Ela leva um susto e não esconde. Judeus e samaritanos não se misturavam, e um mestre não conversava a sós com uma mulher desconhecida em público. Até os discípulos, quando voltam, “ficaram admirados por ele estar falando com uma mulher” (João 4:27). Por que os dois povos viviam afastados está em Por que judeus e samaritanos se odiavam?
Cinco maridos e nenhum veredito
A conversa passa da água do poço para a água viva. Então ele diz: “Vá, chame o seu marido e volte aqui.” “Não tenho marido.” Disse bem, responde Jesus: você teve cinco, e o que você tem agora não é seu marido (João 4:16–18).
Muito pregador já a pintou como mulher mal falada, que ia ao poço ao meio-dia para fugir das outras. João não diz nada disso. Não dá motivo para os cinco casamentos nem uma palavra de censura. Uma mulher podia ficar viúva; podia ser mandada embora, porque naquele mundo o divórcio era direito do marido (Deuteronômio 24:1); podia ser entregue ao irmão do marido morto, como mandava a lei de Moisés (Deuteronômio 25:5). A resposta dela não é vergonha, é curiosidade.
Senhor, vejo que o senhor é profeta.
Um encontro junto ao poço
Quem conhecia o Gênesis esperaria outra história. Um forasteiro encontra uma mulher num poço, pede água, e vem um casamento: é assim que o servo de Abraão encontra Rebeca (Gênesis 24:17), Jacó conhece Raquel junto a um poço (Gênesis 29:10) e Moisés encontra Zípora num poço de Midiã (Êxodo 2:15–21). Muitos estudiosos acham que João brinca de propósito com esse modelo, e logo no poço de Jacó. Só que não há noivado. Ela discute com ele sobre balde e profundidade, sobre Jacó, sobre os montes rivais de adoração, o Gerizim, bem acima deles, e Jerusalém, ao sul. É uma das conversas mais longas de Jesus nos Evangelhos. Quando ela fala do Messias, ele responde com uma das frases mais diretas de João: “Sou eu, aquele que fala com você” (João 4:26).
A primeira a levar uma cidade
Ela deixa o cântaro, justamente o que tinha ido buscar, e volta para Sicar.
Venham ver um homem que me disse tudo o que eu tenho feito. Será que este é o Cristo?
O povo sai da cidade, e muitos creem “por causa do testemunho da mulher” (João 4:39). Jesus fica ali dois dias. Um capítulo antes, Nicodemos, um mestre respeitado, com nome e posição, foi até Jesus de noite e saiu confuso. Esta mulher, sem nome, estrangeira e casada tantas vezes, encontra Jesus ao meio-dia e sai como testemunha.
Fotini
A tradição ortodoxa lhe deu um nome: Fotini, em grego Photini, “a iluminada”. Ela é venerada como igual aos apóstolos, título que os ortodoxos também dão a Maria Madalena, e histórias posteriores fazem dela missionária e mártir no tempo de Nero, jogada num poço seco. Os ortodoxos a celebram no Domingo da Samaritana, quatro semanas depois da Páscoa. O poço de Jacó ainda recebe peregrinos, sob uma igreja ortodoxa grega na atual Nablus, ao pé do monte Gerizim.
Fontes
- João 4:1–42; 3:1–21
- Gênesis 24:10–27; 29:1–12; Êxodo 2:15–21
- Deuteronômio 24:1–4; 25:5–6
- Memória ortodoxa de Santa Fotini, a Samaritana (Domingo da Samaritana)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.