A Bíblia · História

Por que judeus e samaritanos não se davam?

A resposta curta

Porque cada lado dizia ser o verdadeiro Israel. Os samaritanos, nas colinas entre a Galileia e a Judeia, tinham Torá própria e adoravam no monte Gerizim; os judeus adoravam em Jerusalém, e muitos viam os samaritanos como descendentes de estrangeiros. Um governante judeu destruiu o templo deles por volta de 110 a.C., e a violência correu nos dois sentidos.

Revisado em

O que os Evangelhos mostram

O Novo Testamento nunca explica a briga; dá por sabida. Quando Jesus pede água a uma samaritana no poço de Jacó, ela se espanta, e João acrescenta uma nota para os leitores.

A mulher samaritana, então, lhe disse: “Como é que o senhor, sendo judeu, pede de beber a mim, que sou mulher samaritana?” (Pois os judeus não se dão com os samaritanos.)

João 4:9

Uma aldeia samaritana se recusa a receber Jesus “porque ele estava a caminho de Jerusalém” (Lucas 9:53), e Tiago e João se oferecem para mandar descer fogo do céu. Ao enviar os Doze pela primeira vez, Jesus diz em Mateus: “nem entrem em nenhuma cidade dos samaritanos” (Mateus 10:5). E os adversários dele em Jerusalém usam a palavra como xingamento: “Não temos razão em dizer que você é samaritano e tem um demônio?” (João 8:48).

Duas histórias sobre quem eles eram

A briga começa pela origem, e cada lado conta de um jeito. A versão judaica começa em 2 Reis 17. A Assíria conquistou o reino do norte, Israel, por volta de 722 a.C., deportou boa parte do povo e repovoou a terra.

O rei da Assíria trouxe pessoas da Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim, e as colocou nas cidades de Samaria em lugar dos filhos de Israel.

2 Reis 17:24

Esses recém-chegados “temiam ao SENHOR, e também serviam aos seus próprios deuses” (2 Reis 17:33). Os rabinos depois chamaram os samaritanos de kutim, cuteus, por causa de Cuta.

Os samaritanos contam o contrário. Chamam a si mesmos de shamerim, “guardiões” da lei, descendentes das tribos de José, Efraim e Manassés, que nunca saíram da terra. Para eles, a separação veio muito antes, quando o sacerdote Eli trocou o Gerizim por um santuário rival em Siló. A maioria dos historiadores hoje acha que os samaritanos vêm sobretudo dos israelitas que ficaram no norte, e os estudos genéticos concordam.

Dois montes

A briga mais funda era sobre onde adorar a Deus. Os samaritanos leem a sua Torá como apontando para o monte Gerizim, acima de Siquém, a atual Nablus, o monte da bênção de Deuteronômio 11:29. Quando os exilados voltaram da Babilônia para reconstruir o Templo de Jerusalém, gente trazida para a terra pelos assírios ofereceu ajuda, “pois nós buscamos o seu Deus assim como vocês” (Esdras 4:2), e foi recusada. Um templo se ergueu então no Gerizim, provavelmente no século V a.C.

Depois veio o golpe que nenhum lado esqueceu. Por volta de 110 a.C., o governante hasmoneu João Hircano tomou Siquém e destruiu o templo samaritano (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 13.255–256). Mais de um século depois, a mulher do poço ainda aponta para o monte: “Nossos pais adoraram neste monte, e vocês, judeus, dizem que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar” (João 4:20).

Ossos no Templo, sangue na estrada

No tempo de Jesus, a hostilidade virou violência. Sob o prefeito romano Copônio, por volta de 6 a 9 d.C., conta Josefo, samaritanos entraram às escondidas no Templo durante a Páscoa e espalharam ossos humanos nos pórticos (Antiguidades Judaicas 18.29–30). Por volta de 50 d.C., moradores de Gineia mataram peregrinos galileus que atravessavam Samaria, e bandos judeus atacaram aldeias samaritanas como vingança (Antiguidades Judaicas 20.118–136). Em 36 d.C., tropas romanas atacaram samaritanos reunidos no Gerizim, e a queixa custou o cargo a Pôncio Pilatos.

Por que um herói samaritano incomodava

É esse o peso dentro da parábola mais famosa de Jesus. Um homem está caído, espancado, na estrada de Jericó; passa um sacerdote, depois um levita. Então chega um samaritano, que se aproxima, cuida das feridas, põe o homem no próprio animal e paga a hospedaria (Lucas 10:33–35).

Para os primeiros ouvintes, o choque era quem fazia o papel de herói: o homem do povo em quem menos confiavam. Em português, “bom samaritano” virou elogio; naquela estrada, soaria quase como contradição. Lucas conta outra história do mesmo jeito: dos dez leprosos curados, só um volta para agradecer, “e ele era samaritano” (Lucas 17:16). E os samaritanos continuam lá: cerca de 900 deles vivem hoje.

Fontes

  • João 4:1–42; 8:48; Lucas 9:51–56; 10:25–37; 17:11–19; Mateus 10:5
  • 2 Reis 17:24–41; Esdras 4:1–5; Deuteronômio 11:29
  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 13.255–256; 18.29–30; 18.85–89; 20.118–136
  • Reinhard Pummer, The Samaritans: A Profile (2016)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.