A resposta curta
Na fala comum da época, “água viva” era água corrente, de fonte ou de riacho, e não a água parada de uma cisterna. Quando Jesus a oferece à samaritana, em João 4, ela entende ao pé da letra. Ele fala de um dom de Deus que mata a sede de vez, e João depois o identifica com o Espírito.
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Água que corre
No mundo da Bíblia, a água vinha de três lugares: a chuva guardada em cisternas rebocadas, os poços cavados até o lençol freático e as fontes e riachos. A água que corria se chamava água viva, em hebraico mayim chayyim, em grego hydōr zōn. Quando os servos de Isaque cavam num vale e acham uma nascente, o Gênesis diz que encontraram “um poço de água corrente” (Gênesis 26:19); o hebraico diz água viva. A lei pedia esse tipo de água nos ritos de purificação, em que uma ave é morta “sobre água corrente”, a mesma expressão hebraica (Levítico 14:5). Era fresca, e não parava de chegar.
Um mal-entendido no poço
É esse duplo sentido que move a conversa de João 4. Jesus, cansado da viagem, pediu água a uma samaritana. Então ele vira o pedido do avesso.
Se você conhecesse o dom de Deus e quem é o que lhe diz: ‘Dê-me de beber’, você lhe teria pedido, e ele lhe teria dado água viva.
Ela ouve “água corrente” e olha para o poço: “Senhor, o senhor não tem com que tirar a água, e o poço é fundo” (João 4:11). E é mesmo. Medido em 1935, o poço de Jacó descia uns 41 metros pela rocha até a água. Por acaso o senhor é maior do que o nosso pai Jacó, pergunta ela, que nos deu este poço?
Todo aquele que beber desta água terá sede novamente, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede;
Ela continua prática: me dê dessa água, para eu não precisar mais vir aqui. João deixa os dois sentidos correrem lado a lado, como faz quando Nicodemos se pergunta como um homem já velho pode nascer de novo (João 3:4). Quem era ela está em Quem era a mulher samaritana?
Deus, a fonte
Quem ouvia Jesus conhecia a imagem dos profetas. Em Jeremias, Deus acusa o povo de trocar uma fonte por reservatórios furados.
eles me abandonaram, a fonte de águas vivas, e cavaram cisternas para si mesmos: cisternas rachadas que não retêm água.
Zacarias vê “águas vivas” saindo de Jerusalém, metade para o mar oriental e metade para o mar ocidental, no verão e no inverno (Zacarias 14:8). O Cântico dos Cânticos chama a amada de “um poço de águas vivas” (Cântico dos Cânticos 4:15). Água viva era a vida que não para de chegar.
Rios de água viva
João volta à expressão na festa dos Tabernáculos, quando os sacerdotes derramavam água sobre o altar toda manhã. No último dia, Jesus clama que de quem crê nele “fluirão rios de água viva”, e João explica: “ele disse isso a respeito do Espírito” (João 7:38–39). A Bíblia termina com a mesma imagem, um rio da água da vida saindo do trono de Deus, e quem tem sede pode beber “de graça da água da vida” (Apocalipse 22:1, 17). A festa está em O que é a Festa dos Tabernáculos?
Água que continua correndo
Os primeiros cristãos guardaram também o sentido literal. A Didaqué, um manual cristão de por volta de 100 d.C., manda batizar “em água viva” e, só se não houver, em outra água (Didaqué 7). Rios e fontes vinham primeiro. Em português, aliás, água-viva com hífen é também a medusa das nossas praias, que não tem nada a ver com o versículo. A expressão bíblica continua batizando igrejas, hinos e projetos que cavam poços, quase todos inspirados numa conversa ao meio-dia, junto a um poço fundo em Samaria.
Fontes
- João 4:1–42; 7:37–39
- Gênesis 26:19; Levítico 14:5–6; Jeremias 2:13; 17:13
- Zacarias 14:8; Cântico dos Cânticos 4:15; Apocalipse 22:1, 17
- Didaqué 7.1–2
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.