A resposta curta
É o jeito de Caim dizer que o irmão não é responsabilidade dele. Diz isso em Gênesis 4:9, quando Deus pergunta onde está Abel, depois de matá-lo. Shomer, em hebraico, é o guarda, quem toma conta de um rebanho. A história responde: o sangue de Abel clama da terra. A frase fala do dever com o próximo.
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A pergunta por trás da pergunta
Depois do crime no campo, Deus vem a Caim com uma pergunta, como tinha vindo a Adão no jardim com “Onde você está?” (3:9). Caim responde com uma mentira e outra pergunta.
O SENHOR disse a Caim: “Onde está Abel, seu irmão?” Ele respondeu: “Eu não sei. Sou eu o guardador do meu irmão?”
A resposta tem duas partes. Primeiro a mentira: Caim sabe muito bem onde Abel está. Depois a esquiva, que em hebraico são três palavras, hashomer achi anokhi, ao pé da letra “guarda do meu irmão, sou eu?”. Não é uma pergunta de verdade. Quer dizer: isso não é comigo. Deus não discute. Faz outra pergunta, “O que você fez?”, e ele mesmo responde: “A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra” (4:10).
O que faz um shomer
Shomer vem de shamar, guardar, vigiar, tomar conta, um verbo de trabalho do dia a dia na Bíblia. Em português, quase todas as passagens caem no mesmo verbo, guardar. Adão é posto no Éden “para cultivá-lo e guardá-lo” (2:15). Os querubins ficam ali “para guardar o caminho para a árvore da vida” (3:24). Jacó promete a Labão voltar “a apascentar e a guardar o seu rebanho” (30:31), e na manhã em que parte para o acampamento onde está Golias, Davi deixa “as ovelhas com um guarda” (1 Samuel 17:20). O shomer é quem fica responsável e tem de prestar contas do que sumir.
Por isso alguns leitores ouvem deboche na frase de Caim. O irmão dele era pastor de ovelhas (4:2). Agora Caim teria de tomar conta de quem toma conta? O Gênesis usa outra palavra para o ofício de Abel, ro’eh, pastor, mas a alfinetada funciona do mesmo jeito.
O mesmo verbo chega ao vocabulário da Bíblia sobre Deus. A bênção sacerdotal começa com “O SENHOR te abençoe e te guarde” (Números 6:24), e um salmo de peregrinação diz com todas as letras:
Eis que aquele que guarda Israel não cochilará nem dormirá. O SENHOR é o seu guarda.
Caim recusa justamente o papel que os Salmos dão a Deus.
Como os rabinos leram
Os rabinos perceberam que a palavra de Caim pode ser virada do avesso. Num midrash, Caim a devolve a Deus: o Senhor é quem guarda todas as criaturas, por que pede o meu irmão a mim? Eles o comparam a um ladrão pego ao amanhecer, que diz ao vigia que só exerceu o seu ofício, enquanto o vigia falhou no dele (Midrash Tanhuma, Bereshit 9). A parábola expõe a desculpa. Não a aceita: no Gênesis, as palavras seguintes são uma sentença de exílio.
De uma esquiva a uma ideia moral
Como a história responde a Caim com o sangue do irmão, os leitores sempre ouviram o veredito como um sim: você é, sim, responsável pelo seu irmão. O Novo Testamento reforça. A primeira carta de João pede que nos amemos uns aos outros, “não como Caim, que era do Maligno e assassinou o seu irmão” (1 João 3:11–12). Desde então a frase representa o cuidado com quem precisa: a família, o vizinho, o estranho.
No Brasil, ela chega com palavras diferentes conforme a Bíblia de cada um: “guardador”, como na Bíblia Portuguesa Mundial, mas também “guarda” ou “tutor” em outras traduções. A ideia é a mesma. Em inglês, “my brother’s keeper” virou lema político. Em 2004, Barack Obama transformou a pergunta de Caim numa afirmação, a de que cada um é guardião do seu irmão e da sua irmã, e em 2014 deu esse nome a um programa da Casa Branca para meninos e jovens negros e de outras minorias. Para o crime em si, veja por que Caim matou Abel.
Fontes
- Gênesis 2:15; 3:9–24; 4:1–16; 30:31
- 1 Samuel 17:20; Números 6:24; Salmos 121
- 1 João 3:11–12
- Midrash Tanhuma, Bereshit 9
- Barack Obama, discurso na Convenção Nacional Democrata, Boston (27 de julho de 2004)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.