Santos e mártires · Expressões

Onde está na Bíblia ‘mais bem-aventurado é dar do que receber’?

A resposta curta

Em Atos 20:35. Ao se despedir dos presbíteros de Éfeso em Mileto, Paulo pede que eles se lembrem “das palavras do Senhor Jesus, que ele mesmo disse: ‘Mais bem-aventurado é dar do que receber’”. Nenhum Evangelho registra a frase. É o mais conhecido dos ágrafos, palavras de Jesus guardadas fora dos quatro Evangelhos.

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Uma despedida em Mileto

Por volta de 57 d.C., Paulo tem pressa de chegar a Jerusalém até Pentecostes, levando dinheiro coletado para os pobres de lá. Não quer parar em Éfeso, então chama os presbíteros da igreja para encontrá-lo em Mileto, mais abaixo na costa (Atos 20:16–17). Ali faz o único discurso de Atos dirigido por Paulo a cristãos. E termina com uma citação.

Em todas as coisas eu lhes dei o exemplo de que, trabalhando assim, vocês devem ajudar os fracos, e se lembrar das palavras do Senhor Jesus, que ele mesmo disse: ‘Mais bem-aventurado é dar do que receber.’

Atos 20:35

Depois ele se ajoelha e ora com todos. Eles choram e o abraçam, “entristecendo-se sobretudo por causa da palavra que ele havia dito, de que não veriam mais o seu rosto” (20:38), e o acompanham até o navio.

Uma frase que nenhum Evangelho guardou

Procure em Mateus, Marcos, Lucas e João: a frase não está lá. O curioso é que Lucas, autor de Atos, também escreveu um Evangelho e não a colocou nele. As palavras de Jesus que sobreviveram fora dos quatro Evangelhos se chamam ágrafos, do grego “não escritos”, e esta é a mais conhecida delas. O próprio Evangelho de João admite que muita coisa ficou de fora: “Há também muitas outras coisas que Jesus fez” (João 21:25).

Durante décadas, antes de os Evangelhos serem escritos, os cristãos transmitiram as palavras de Jesus de boca em boca, e o próprio Paulo cita algumas. Sobre o divórcio, escreve: “não eu, mas o Senhor” (1 Coríntios 7:10), e repete as palavras sobre o pão na Última Ceia (11:23–24). Por volta de 96 d.C., uma carta da igreja de Roma, a Primeira Carta de Clemente, elogia os coríntios por darem com mais gosto do que recebiam, o eco mais antigo da frase.

Por que Paulo disse isso ali

A citação fecha uma conversa sobre dinheiro.

Não cobicei a prata, o ouro ou as roupas de ninguém. Vocês mesmos sabem que estas mãos supriram as minhas necessidades e aos que estavam comigo.

Atos 20:33–34

Paulo vivia de fazer tendas (Atos 18:3) e recusava ser sustentado pelas igrejas que fundava, embora, como escreveu, “o Senhor ordenou que aqueles que proclamam o Evangelho vivam do Evangelho” (1 Coríntios 9:14). Cita uma palavra de Jesus para explicar por que abriu mão de outra. E levava uma oferta: a coleta das igrejas da Macedônia e da Acaia para os pobres de Jerusalém (Romanos 15:25–26), que Atos só menciona depois, como “donativos para os necessitados” (24:17). Aos coríntios ele já tinha escrito: “Deus ama quem dá com alegria” (2 Coríntios 9:7).

Os parentes da frase

A ideia tem primos próximos nos Evangelhos: “Vocês receberam de graça, portanto, deem de graça” (Mateus 10:8) e “Deem, e lhes será dado” (Lucas 6:38). Jesus chega a mandar o anfitrião convidar os pobres, “e você será abençoado, porque eles não têm como lhe retribuir” (Lucas 14:14). Bem-aventurado, makarios, é a palavra das bem-aventuranças, e por isso algumas traduções dizem “mais feliz”. A sabedoria judaica tinha a sua versão no Eclesiástico, livro das Bíblias católicas e ortodoxas: “Não estenda a mão apenas para receber e a feche quando for hora de retribuir” (Eclesiástico 4:31). E Aristóteles dizia que a generosidade aparece mais no dar do que no receber.

Dar ou receber?

Muitos brasileiros conhecem uma frase parecida, com outro acento: “é dando que se recebe”, da Oração de São Francisco. A oração, porém, não é de Francisco de Assis. Apareceu numa revistinha católica francesa em 1912, sem autor. A frase de Atos não promete retorno nenhum. Diz apenas que dar é melhor, e manda ajudar os fracos, que não têm como pagar.

Fontes

  • Atos 20:16–38; 18:3; 24:17
  • João 21:25; Mateus 10:8; Lucas 6:38; 14:12–14
  • 1 Coríntios 7:10; 9:12–18; 11:23–24; 2 Coríntios 9:7; Romanos 15:25–26
  • Eclesiástico (Sirácida) 4:31
  • Primeira Carta de Clemente 2.1 (c. 96 d.C.); Aristóteles, Ética a Nicômaco 4.1

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.