A resposta curta
Na Bíblia, ela vem do Sermão da Montanha: “tudo o que vocês desejam que os homens lhes façam, façam também a eles” (Mateus 7:12). Mas é mais antiga. O livro de Tobias e o sábio Hillel a ensinaram na forma negativa, não faça o que você odeia, e Confúcio ensinou uma versão na China por volta de 500 a.C.
Revisado em
No Sermão da Montanha
Portanto, tudo o que vocês desejam que os homens lhes façam, façam também a eles; pois esta é a lei e os profetas.
Mateus a coloca perto do fim do sermão, como um resumo: esta única frase é “a lei e os profetas”, a Escritura inteira. Lucas a põe dentro do mandamento de amar os inimigos (Lucas 6:31). Por trás das duas versões está uma frase da lei de Moisés, “você amará o seu próximo como a si mesmo” (Levítico 19:18), que Jesus chama em outro lugar de segundo grande mandamento (Mateus 22:39). Poucos versículos depois, o Levítico estende esse amor ao estrangeiro que vive em Israel: “você o amará como a si mesmo” (Levítico 19:34).
Hillel num pé só
Os mestres judeus conheciam a regra antes de Jesus, quase sempre na forma negativa. O Talmude Babilônico conta uma história de Hillel, o grande sábio da época de Herodes, o Grande. Um pagão pede para aprender a Torá inteira enquanto se equilibra num pé só. Outro mestre famoso, Shammai, já o tinha enxotado com uma régua de construtor. Hillel o acolhe e responde de um fôlego: o que é odioso para você, não faça ao seu próximo. Isso é toda a Torá, diz ele; o resto é comentário. Agora vá e aprenda (Shabat 31a).
O Talmude foi compilado séculos depois, e por isso a história mostra como os rabinos lembravam de Hillel. Um livro judaico mais antigo traz a mesma regra. Em Tobias, escrito talvez dois séculos antes de Jesus, um pai que manda o filho em viagem lhe dá os últimos conselhos.
Não faça a ninguém aquilo que você mesmo odeia.
Tobias faz parte do Antigo Testamento católico e ortodoxo; os protestantes o contam entre os apócrifos, e por isso ele não aparece na maioria das Bíblias evangélicas brasileiras. Um século depois de Hillel, o rabino Akiva chamou “você amará o seu próximo como a si mesmo” de grande princípio da Torá (Sifra sobre Levítico 19:18).
Fazer ou não fazer?
Hillel e Tobias dizem o que não fazer; Jesus diz o que fazer. Pregadores cristãos já deram muita importância a essa diferença, e há quem chame a forma negativa de regra de prata. Muitos estudiosos acham a distância pequena, porque as duas partem do mesmo ponto: imagine-se no lugar do outro. Os primeiros cristãos usavam as duas formas. A Didaquê, um manual da igreja de por volta de 100 d.C., traz a negativa (Didaquê 1.2), e algumas cópias antigas de Atos, a começar pelo Códice de Beza, a acrescentam à carta dos apóstolos aos gentios (Atos 15:20, 29).
Mais antiga que todos eles
A ideia é bem mais velha que Hillel e bem mais larga que Israel. Na China, por volta de 500 a.C., Confúcio, perguntado sobre uma palavra que servisse para a vida inteira, escolheu shu, reciprocidade: não imponha aos outros o que você não quer para si (Analectos 15.24). Na Grécia, o orador Isócrates pôs na boca de um rei o conselho de não fazer aos outros o que nos irritaria se fosse feito a nós (Nícocles 61). Há versões em textos hindus e budistas. Em 1993, o Parlamento das Religiões do Mundo, reunido em Chicago, fez dela o centro da sua declaração por uma ética global.
Por que “de ouro”
O nome vem do inglês. Pregadores começaram a chamá-la de golden rule no início dos anos 1600, e o rótulo pegou. Também teve críticos. Em 1785, Immanuel Kant a chamou de trivial: ela não fala dos deveres para consigo mesmo, disse, e deixaria um criminoso argumentar contra o juiz que o condena (Fundamentação da metafísica dos costumes). Bernard Shaw fez piada em 1903: não faça aos outros o que gostaria que fizessem a você, porque os gostos podem não ser os mesmos.
Fontes
- Mateus 7:12; 22:34–40; Lucas 6:27–36
- Levítico 19:18, 34; Tobias 4:15; Atos 15:20, 29 (Códice de Beza)
- Talmude Babilônico, Shabat 31a; Sifra sobre Levítico 19:18
- Didaquê 1.2; Confúcio, Analectos 15.24; Isócrates, Nícocles 61
- Immanuel Kant, Fundamentação da metafísica dos costumes (1785); George Bernard Shaw, Maxims for Revolutionists (1903)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.