A resposta curta
Quer dizer que ninguém consegue ser leal por inteiro a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. Mamom é uma palavra aramaica para riqueza ou bens, que o grego de Mateus 6:24 e Lucas 16:13 deixou sem traduzir. Jesus a trata como um senhor rival, que quer a vida inteira do servo. Mamom como demônio é invenção medieval.
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A frase
Ela aparece no Sermão da Montanha, logo depois de “onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mateus 6:21). Os brasileiros a conhecem na forma das traduções antigas, “não podeis servir a Deus e a Mamom”. Na Bíblia Portuguesa Mundial, o versículo diz assim:
Ninguém pode servir a dois senhores, pois ou odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e a Mamom.
A imagem é a da escravidão. O verbo grego quer dizer servir como escravo, e os senhores são donos. Um escravo com dois donos que querem coisas opostas não agrada a nenhum dos dois, e Jesus diz que o dinheiro é esse tipo de dono. Ele não fica sendo ferramenta; ele dá ordens.
Uma palavra aramaica num Evangelho grego
Mamom não é grego. É o aramaico mamona, riqueza ou bens, na língua que Jesus falava. Mateus e Lucas escreveram em grego, mas guardaram a palavra estrangeira, mamōnas, como os Evangelhos guardam outras palavras aramaicas, por exemplo Gólgota. Muitos estudiosos a ligam à raiz de amém, ser firme ou confiável: Mamom seria aquilo em que a pessoa se apoia.
No hebraico dos rabinos, é uma palavra comum para dinheiro. A Mishná separa as causas judiciais em dinei mamonot, causas de dinheiro e bens, que três juízes podiam decidir, e causas de vida ou morte, que pediam um tribunal de vinte e três (Sanhedrin 1:1–4; 4:1). A palavra em si é neutra. O que Jesus faz é personificá-la e colocá-la num trono rival.
A versão de Lucas
Lucas põe a mesma frase no fim da sua parábola mais estranha. Um administrador prestes a ser demitido por desperdício chama os devedores do patrão e corta as dívidas, cem barris de azeite viram cinquenta, para ter amigos quando estiver sem emprego. E o patrão o elogia pela esperteza (Lucas 16:1–8). Aqui a Bíblia Portuguesa Mundial faz uma escolha interessante: não escreve Mamom, traduz.
Eu lhes digo: façam amigos para si mesmos por meio das riquezas injustas, para que, quando vocês vierem a faltar, eles os recebam nas tendas eternas.
Onde o grego diz “mamom da injustiça”, a BPM diz “riquezas injustas”, e faz o mesmo no versículo 11. Só no fecho, quando o dinheiro vira um senhor, a palavra aramaica volta: “Vocês não podem servir a Deus e a Mamom” (Lucas 16:13).
Mamom é um demônio?
Na Bíblia, não. Nos Evangelhos, Mamom é o dinheiro com letra maiúscula, e nenhum texto antigo fala de alguém que adorasse um deus com esse nome. Mesmo assim a personificação cresceu. No fim da Idade Média, Mamom já era um demônio da ganância, e em 1589 o bispo alemão Peter Binsfeld o associou à avareza na sua lista dos demônios por trás dos sete pecados capitais.
Os poetas foram atrás. O Paraíso perdido, de John Milton (1667), faz de Mamom o anjo caído que, mesmo no céu, só tinha olhos para o chão de ouro, e que comanda a escavação do ouro do inferno para construir o Pandemônio. Hoje, servir a Mamom quer dizer tratar a riqueza como um deus. A frase não proíbe ter coisas. Ela pergunta quem manda.
Fontes
- Mateus 6:19–24; Lucas 16:1–13
- Mishná, Sanhedrin 1:1–4; 4:1
- Peter Binsfeld, Tractatus de confessionibus maleficorum et sagarum (1589)
- John Milton, Paradise Lost 1.678–751 (1667)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.