A Bíblia · Textos

‘Pois teu é o reino, o poder e a glória’ está na Bíblia?

A resposta curta

Só em manuscritos mais tardios. A frase aparece em Mateus 6:13 na maioria das cópias gregas medievais e nas Bíblias tradicionais, mas não nos manuscritos mais antigos de Mateus, e nunca na versão de Lucas. A maioria dos estudiosos acha que os primeiros cristãos a acrescentaram, ecoando o louvor de Davi em 1 Crônicas 29:11.

Revisado em

Duas versões da mesma oração

O Pai-Nosso aparece de duas formas. Mateus o coloca no Sermão da Montanha, logo depois de um aviso para não usar “vãs repetições como fazem os gentios” (Mateus 6:7). Lucas o traz quando um discípulo pede: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lucas 11:1). A versão de Lucas é mais curta. Nos manuscritos mais antigos, começa com uma só palavra, “Pai”, e termina no pedido para não cair em tentação. Nenhum dos dois Evangelhos, nas cópias mais antigas, fecha com uma frase de louvor.

O que os manuscritos mostram

Abra a Bíblia Portuguesa Mundial, a tradução citada nesta página, e você vai encontrar a frase no texto.

E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do maligno. Pois teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém.

Mateus 6:13

Isso porque ela segue a maioria dos manuscritos gregos, quase todos medievais, como faziam as Bíblias da Reforma. As cópias mais antigas de Mateus, entre elas os códices Sinaítico e Vaticano, do século IV, param em “livra-nos do maligno”. Uma das primeiras cópias gregas com o final conhecido, o Codex Washingtonianus, é de por volta de 400 d.C. Muitas traduções modernas põem a frase numa nota de rodapé.

De onde veio o final

O primeiro sinal está na Didaqué, um pequeno manual cristão de por volta de 100 d.C. Ele traz a oração, manda rezá-la três vezes por dia e a encerra louvando o poder e a glória de Deus para sempre, sem falar do reino (Didaqué 8.2–3). No fim do século IV, um manual de igreja, as Constituições Apostólicas, já tinha acrescentado o reino. Copistas que rezavam a oração toda semana na igreja passaram a escrever o final nas suas cópias de Mateus.

As palavras em si são mais antigas que a igreja. Encerrar uma oração com louvor era costume judaico, e o modelo é a bênção de Davi no fim do seu reinado.

Tua, SENHOR, é a grandeza, o poder, a glória, a vitória e a majestade! Pois tudo o que há nos céus e na terra é teu. Teu é o reino, SENHOR, e tu és exaltado como cabeça sobre todos.

1 Crônicas 29:11

A oração inteira nasce do mesmo chão. O começo ecoa o Kadish, que ainda se reza nas sinagogas: que seu grande nome seja santificado, que venha o seu reino.

Por que cada igreja termina de um jeito

  • Católicos. A Vulgata latina de Jerônimo seguia manuscritos sem o final, e o Ocidente latino nunca o rezou junto com o Pai-Nosso. É por isso que o católico reza “mas livrai-nos do mal. Amém”. Desde a missa reformada de 1970, porém, o padre acrescenta uma prece pela paz, e o povo responde: “Vosso é o reino, o poder e a glória para sempre!”
  • Ortodoxos. O sacerdote canta o final em voz alta, ampliado: o reino, o poder e a glória “do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
  • Evangélicos. As Bíblias da Reforma, feitas a partir do grego medieval, traziam a frase, e a maioria das igrejas protestantes, no Brasil e fora dele, termina o Pai-Nosso com “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém”.

Então a frase não é um corte dos católicos nem uma invenção dos evangélicos. É uma resposta cristã antiga, dita em voz alta na igreja, que passou do culto para a margem de Mateus e, depois, para o texto.

Fontes

  • Mateus 6:7–13; Lucas 11:1–4
  • 1 Crônicas 29:10–13
  • Didaqué 8.2–3
  • Códice Sinaítico e Códice Vaticano (século IV); Codex Washingtonianus (c. 400 d.C.)
  • Missal Romano (1970), Ordinário da Missa

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.