A resposta curta
Porque olhou para trás. Quando a família de Ló fugia de Sodoma, os visitantes avisaram: “Não olhe para trás” (Gênesis 19:17). Ela olhou e virou uma estátua de sal. O Gênesis não diz por quê: um midrash a culpa por denunciar os hóspedes, Jesus a usa como alerta contra o apego aos bens, e muitos veem saudade de casa.
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O que o Gênesis diz
A ordem vem de madrugada, enquanto os dois visitantes puxam pela mão Ló, a mulher dele e as duas filhas para fora de Sodoma: “Fuja por sua vida! Não olhe para trás, e não fique em nenhum lugar da planície” (Gênesis 19:17). Ló pede para fugir para uma cidade pequena ali perto, Zoar, e chega lá quando o sol nasce. Então enxofre e fogo caem sobre as cidades da planície.
Mas a mulher de Ló olhou para trás dele, e ela se tornou uma estátua de sal.
Em hebraico, são seis palavras. Ela não tem nome, não diz uma frase e não recebe motivo. Dois detalhes importam. Ela caminhava atrás do marido, ficando para trás. E o verbo, nabat, é mais do que uma olhadela: quer dizer fitar, o mesmo que Deus usa ao mandar Abraão olhar para o céu e contar as estrelas (15:5). Na manhã seguinte, Abraão olha para a mesma planície e só vê fumaça subindo “como a fumaça de uma fornalha” (19:28).
Por que ela olhou?
O Gênesis deixa o motivo em branco, e os leitores o preenchem há mais de dois mil anos.
- Ela desobedeceu. A leitura mais simples. O aviso era claro, e ela o quebrou na pior hora.
- Ela tinha saudade do que deixou. É assim que Jesus a lê. No dia em que o Filho do Homem for revelado, diz ele, quem estiver no telhado não deve descer para pegar os seus bens, e quem estiver no campo não deve voltar. E então: “Lembrem-se da mulher de Ló!” (Lucas 17:32).
- Ela pecou com o sal. Um midrash judaico conta que, na noite em que os visitantes chegaram, ela andou pela vizinhança pedindo sal para os hóspedes, e assim avisou a cidade inteira de que eles estavam ali (Gênesis Rabá 51:5). Rashi resume: com sal ela pecou, e com sal foi castigada.
- Ela sofria. Os noivos das filhas acharam que Ló estava brincando e ficaram (19:14), e alguns leitores acham que ela deixou também filhas casadas na cidade. Poetas modernos, entre eles a russa Anna Akhmátova, tomaram o partido dela: uma mulher que não conseguiu parar de olhar para casa.
Por que sal?
A imagem nasce da paisagem. A planície de Sodoma ficava junto ao mar Morto, cerca de 430 metros abaixo do nível do mar, onde a água é tão salgada que nenhum peixe vive nela e crostas brancas cobrem a margem. No lado sudoeste ergue-se o monte Sodoma, uma serra feita quase toda de sal-gema. A chuva a esculpe em colunas, e uma delas ganhou há muito tempo o apelido de Mulher de Ló. Na Bíblia, o sal também marca a terra morta: Moisés avisa que um país infiel será “enxofre, sal e terra queimada”, onde nada cresce, “como a destruição de Sodoma” (Deuteronômio 29:23).
Os escritores antigos acreditavam que a estátua continuava de pé. O livro da Sabedoria fala de uma coluna de sal que ficou como memorial de uma alma incrédula (10:7). O historiador Flávio Josefo, no século I, conta que ela se voltava sem parar para a cidade enquanto fugia, virou uma coluna de sal, e diz que ele mesmo a viu (Antiguidades Judaicas 1.203).
O que muita gente entende errado
Muita gente imagina um castigo cruel por um instante de curiosidade. O texto se importa menos com a curiosidade do que com a direção. A família se salva sendo arrancada dali, e todos os outros sobreviventes seguem em frente. Os leitores costumam compará-la a Orfeu, no mito grego, que perde Eurídice ao olhar para trás na saída do mundo dos mortos. A lenda judaica deu a ela um nome, Edith. O Gênesis nunca dá, e talvez seja esse o ponto: ela é lembrada só pelo lado para onde se virou.
Fontes
- Gênesis 19:12–30
- Lucas 17:28–33
- Deuteronômio 29:23
- Gênesis Rabá 51:5; Rashi sobre Gênesis 19:26
- Sabedoria 10:7
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 1.203
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.