A resposta curta
Porque não tinha como tomá-la, e achava que não precisava. Roma ficava a uns 300 quilômetros, atrás de muralhas de pedra, com homens para defendê-las, e Aníbal não tinha máquinas de cerco. O plano dele era desmontar as alianças de Roma e forçar uma paz, não invadir a cidade. Roma nunca pediu acordo.
Revisado em
“Você sabe vencer, Aníbal”
A cena famosa está em Tito Lívio. Na noite de Canas, enquanto os oficiais cercam Aníbal para felicitá-lo e pedem que deixe os homens descansarem, o comandante da cavalaria, Maarbal, diz que não há tempo a perder. Daqui a cinco dias você vai jantar como vencedor no Capitólio, garante. Venha atrás: eu vou na frente com os cavaleiros, para que os romanos saibam que você chegou antes de saberem que está vindo. Aníbal elogia o entusiasmo, mas pede tempo para pensar.
Na verdade, os deuses não deram tudo à mesma pessoa. Você sabe vencer, Aníbal, mas não sabe aproveitar a vitória.
Lívio acrescenta o seu próprio veredito: acreditava-se que aquele dia de demora salvou a cidade e o império. Só que Lívio escreveu no tempo de Augusto, quase dois séculos depois. Políbio, que escreveu quando ainda havia gente viva daquela guerra e conversou com quem lutou nela, nem menciona a cena. Pode ser uma tradição que Lívio lapidou.
O que havia no caminho
- A distância. Canas fica a uns 300 quilômetros de Roma em linha reta, e mais do que isso pela estrada através dos Apeninos. E cavalo não sobe muralha.
- As muralhas. Roma estava dentro da Muralha Serviana, erguida em pedra vulcânica no século IV a.C., depois que os gauleses saquearam a cidade: uns 11 quilômetros de volta e, em certos trechos, até 10 metros de altura.
- Os homens. Logo depois da notícia, o Senado nomeou um ditador, Marco Júnio Pera, que alistou quatro legiões novas, com rapazes de dezessete anos e até mais novos, e armou 8.000 escravos comprados pelo Estado.
- O cerco. Aníbal não trazia máquinas de cerco. Cercar cidades era o seu ponto fraco. Sagunto, na Hispânia, o tinha segurado por oito meses. Depois de Canas, até a pequena Casilino, defendida por uma guarnição de Preneste e Perúsia, resistiu ao exército dele o inverno inteiro.
O que Aníbal queria
Aníbal nunca planejou destruir Roma. Queria que os aliados italianos desertassem e que o Senado aceitasse uma paz que pusesse Roma no seu devido tamanho. Lívio conta que, depois de Canas, ele disse aos prisioneiros romanos que não fazia uma guerra de extermínio: lutava pela honra e pelo domínio. Deixou que os cativos mandassem dez enviados a Roma para pedir o resgate, e um nobre cartaginês, Cartalão, foi junto para sondar a paz. Um lictor o encontrou antes da cidade e mandou que deixasse o território romano até o anoitecer. Por um tempo, o plano pareceu dar certo: Cápua e boa parte do sul passaram para o lado dele.
Aníbal às portas, cinco anos depois
Ele veio, uma vez. Em 211 a.C., tentando afastar as legiões de Cápua, sua aliada sitiada, marchou para o norte e acampou junto ao rio Ânio, a umas três milhas romanas de Roma, cerca de 4,5 quilômetros. Depois cavalgou até a Porta Colina com 2.000 cavaleiros para olhar as muralhas. Duas vezes, diz Lívio, os exércitos se alinharam para lutar, e duas vezes uma tempestade de chuva e granizo os separou. Os romanos mostraram o seu desprezo leiloando o terreno onde estava o acampamento dele, que foi vendido pelo preço cheio. Aníbal respondeu pondo à venda as lojas dos banqueiros em volta do Fórum, e foi embora. Cápua caiu do mesmo jeito.
Ele perdeu a chance?
Lívio diz que, quando Aníbal enfim zarpou para casa, em 203 a.C., amaldiçoou a si mesmo por não ter levado o exército direto a Roma, ainda sujo do sangue de Canas. A maioria dos historiadores modernos acha que ele acertou da primeira vez. Um exército cansado e sem máquinas de cerco não tomaria Roma em 216 a.C. O que o derrotou não foram só as muralhas, mas a recusa da cidade em se dobrar (por que ele perdeu a guerra).
Fontes
- Tito Lívio, História de Roma 22.51 (Maarbal), 22.57–58, 23.17–19 (Casilino), 26.7–11 (a marcha sobre Roma, 211 a.C.) e 30.20
- Políbio, Histórias 3.117–118 e 9.3–9
- Muralha Serviana, Roma: trecho preservado ao lado da estação Termini
- J. F. Lazenby, Hannibal’s War (1978)