A resposta curta
Gênesis 11:6 dá o motivo: “eles são um só povo, e todos têm uma só língua”, e nada do que pretendem lhes será impedido. Os construtores queriam fazer um nome e ficar juntos; Deus os espalhou confundindo a língua, e a obra parou. Os leitores veem castigo para o orgulho e um empurrão para povoar a terra.
Revisado em
Nove versículos, dois planos
A história de Babel cabe em nove versículos (Gênesis 11:1–9). Depois do Dilúvio, “toda a terra tinha uma só língua e uma só fala”. O povo vai para o oriente, para a planície de Sinar, e inventa: tijolo bem queimado, com piche como argamassa. Então vem o plano, construir “uma torre cujo topo chegue até o céu” e “fazer um nome para nós, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (11:4). Deus responde com um plano dele.
Eis que eles são um só povo, e todos têm uma só língua; e isso é o que começam a fazer. Agora, nada do que pretendem fazer lhes será impedido. Venham, vamos descer e confundir ali a língua deles, para que não entendam a fala uns dos outros.
Os construtores disseram duas vezes “Venham, vamos” (11:3–4). Deus responde com as mesmas palavras: “Venham, vamos descer.” E o versículo 5 esconde uma ironia. A torre que devia tocar o céu é tão pequena que “o SENHOR desceu para ver” a obra.
Três motivos que os leitores encontram
- Um nome tomado, não recebido. Os construtores querem um nome feito por eles mesmos. No capítulo seguinte, Deus promete a Abrão: “Eu o abençoarei e engrandecerei o seu nome” (12:2), de presente. Muita gente vê aqui o orgulho de quem quer invadir o céu. O historiador Flávio Josefo culpou Ninrode, que, segundo ele, incitou o povo a desafiar Deus e a erguer uma torre alta demais para qualquer dilúvio (Antiguidades Judaicas 1.113–114). O Gênesis nunca liga Ninrode à torre, assunto de outra página: Ninrode construiu a torre?
- A recusa em se espalhar. Depois do Dilúvio, Deus disse aos filhos de Noé: “Sejam frutíferos, multipliquem-se e encham a terra” (9:1). Os construtores erguem a cidade justamente para não se espalhar. Nessa leitura, a confusão das línguas empurra a humanidade a cumprir a bênção. O capítulo 10, logo antes, já lista as nações “cada um segundo a sua língua” (10:5): o capítulo 10 mostra o resultado, o 11 conta como começou.
- Um limite e uma misericórdia. O “nada do que pretendem fazer lhes será impedido” ecoa o Éden, onde Deus diz que o homem “se tornou como um de nós” (3:22). Há quem ouça aqui um alerta contra o poder concentrado num só povo, de uma só fala. Um midrash conta que, quando um homem caía da torre, ninguém ligava, mas quando caía um tijolo todos se sentavam e choravam (Pirkei de-Rabbi Eliezer 24).
Deus destruiu a torre?
O Gênesis não diz isso. Diz apenas: “E eles pararam de construir a cidade” (11:8). A torre derrubada veio depois: o Livro dos Jubileus, do século II a.C., conta que Deus mandou um vento forte que a pôs abaixo (10:26). O nome da cidade sai da cena: “Por isso, o seu nome foi chamado Babel, porque ali o SENHOR confundiu a língua de toda a terra” (11:9). O trocadilho é com o hebraico balal, confundir. Os babilônios chamavam a cidade de Bab-ili, “porta do deus”, e Babel é simplesmente a Babilônia (onde ficava a torre). Em português, a história deixou a palavra no dia a dia: quando a reunião vira uma gritaria em que ninguém se entende, dizemos que virou “uma babel”.
Babel ao contrário
Autores posteriores procuraram o caminho de volta. Sofonias promete que Deus vai purificar “os lábios dos povos” (3:9), com safah, lábio, a mesma palavra que Gênesis 11:1 usa para língua. A tradição judaica dizia que a língua única de antes de Babel era o hebraico, a língua santa (Rashi sobre Gênesis 11:1). Desde os primeiros séculos, os cristãos leem o Pentecostes como Babel do avesso: em Jerusalém, “cada um os ouvia falar na sua própria língua” (Atos 2:6). As línguas continuam diferentes, mas o entendimento volta (o que aconteceu no Pentecostes). Douglas Adams usou o nome no peixe-babel, que traduz qualquer idioma em O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Fontes
- Gênesis 3:22; 9:1; 10:1–32; 11:1–9; 12:1–3
- Sofonias 3:9; Atos 2:1–13
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 1.113–118
- Livro dos Jubileus 10:18–26
- Pirkei de-Rabbi Eliezer 24; Rashi sobre Gênesis 11:1
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.