A Bíblia · Significado

Por que Deus mudou o nome de Abrão para Abraão?

A resposta curta

Porque o nome novo carregava a promessa. Em Gênesis 17, aos noventa e nove anos e ainda sem filho com Sarai, Abrão, “pai exaltado”, vira Abraão, explicado como “pai de uma multidão de nações”. Sarai vira Sara, “princesa”. Os nomes novos selam uma aliança, com a circuncisão como sinal, um ano antes do nascimento de Isaque.

Revisado em

A cena de Gênesis 17

Vinte e quatro anos depois de deixar Harã, Abrão tem noventa e nove. Tem um filho, Ismael, com Agar, a escrava de Sarai, e Sarai continua sem filhos. Então Deus aparece: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Ande diante de mim e seja irrepreensível.” Repete a aliança, e desta vez ela vem com um nome novo.

Seu nome não será mais Abrão, mas o seu nome será Abraão; pois eu o constituí pai de uma multidão de nações.

Gênesis 17:5

Repare no tempo do verbo: “eu o constituí”. A promessa é dita como coisa feita, a um homem cuja mulher nunca deu à luz. O nome de Sarai muda no mesmo discurso: “o nome dela será Sara”, e “reis de povos procederão dela” (Gênesis 17:15–16). A aliança também ganha um sinal no corpo, a circuncisão de todo menino no oitavo dia. Abraão cai com o rosto em terra e ri, e o filho prometido recebe o nome de Isaque, “ele ri”.

O que os nomes querem dizer

Abrão era um nome comum para a época: av-ram, “pai exaltado”. Abraão é só um pouco mais longo, e o Gênesis o explica pelo som, não pela gramática: lembra av hamon, “pai de uma multidão”. Muitos estudiosos acham que Abraão era apenas uma forma mais longa do mesmo nome. O que importa é o que ele diz em voz alta cada vez que alguém o chama: pai de nações, dito de um homem sem herdeiro com a esposa. O Talmude chega a ler Abrão como “pai de Arã”, um chefe local, e Abraão como pai do mundo inteiro (Berakhot 13a).

Sarai e Sara querem dizer princesa. O mesmo trecho do Talmude lê a mudança como um alargamento: Sarai, “minha princesa”, era princesa do seu povo; Sara seria princesa do mundo todo. Em hebraico, os dois nomes ganham a letra he. Um midrash conta que o yod tirado de Sarai foi reclamar diante do trono de Deus, até ganhar um lugar novo, no começo do nome de Josué, quando Moisés transformou Oseias em Yehoshua (Gênesis Rabá 47:1; Números 13:16).

Um nome recebido, não fabricado

A mudança responde a uma história contada logo antes. Em Babel, os construtores dizem: “vamos fazer um nome para nós” (Gênesis 11:4), e a torre fica pela metade. No capítulo seguinte, Deus promete a Abrão: “engrandecerei o seu nome” (Gênesis 12:2). De um lado, um nome conquistado com uma torre até o céu; do outro, um nome dado de presente. Gênesis 17 é essa promessa cumprida. Séculos depois, uma oração em Neemias louva o Deus que “lhe deu o nome de Abraão” (Neemias 9:7).

Nome novo, papel novo

Na Bíblia, um nome novo costuma marcar um papel novo, e muitas vezes um novo senhor. O Faraó chama José de Zafenate-Paneia (Gênesis 41:45). A Babilônia chama Daniel de Beltessazar (Daniel 1:7). O faraó Neco transforma Eliaquim no rei Jeoaquim (2 Reis 23:34). Quando é Deus quem dá o nome, ele traz uma vocação: Jacó vira Israel depois de lutar no vau do Jaboque (Gênesis 32:28), e Jesus chama Simão de Cefas, a pedra, Pedro (João 1:42). Paulo é outro caso: Atos diz apenas que Saulo “também é chamado Paulo” e nunca mostra uma troca de nome.

Os rabinos levaram o nome de Abraão a sério. Um deles ensinou que quem ainda o chama de Abrão desobedece a um mandamento (Berakhot 13a). Com Jacó é diferente, observa o Talmude, porque o próprio Deus continua a chamá-lo de Jacó (Gênesis 46:2).

Fontes

  • Gênesis 11:1–9; 12:1–4; 17:1–27
  • Neemias 9:7; Números 13:16; Gênesis 32:22–32; João 1:42; Atos 13:9
  • Talmude Babilônico, Berakhot 13a
  • Gênesis Rabá 47:1

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.