A resposta curta
Para envolver quem ouve e para separar a multidão, sugerem os Evangelhos. A parábola faz o ouvinte julgar uma história antes de perceber que ela fala dele, como o profeta Natã fez com o rei Davi. E Marcos diz que, para os de fora, “todas as coisas são ditas por parábolas”: só entende quem se aproxima e pergunta.
Revisado em
O que é uma parábola
A palavra vem do grego parabolē, “pôr ao lado”: uma coisa colocada junto de outra para comparar. Por trás dela está o hebraico mashal, uma palavra mais ampla, que serve para provérbio, enigma, zombaria ou história. Deus diz a Ezequiel: “proponha um enigma e conte uma parábola” (Ezequiel 17:2), e um salmo promete: “Abrirei a minha boca em uma parábola. Proferirei enigmas do passado” (Salmos 78:2). Mateus cita esse salmo para explicar o costume de Jesus (Mateus 13:35).
As parábolas de Jesus são curtas e pé no chão: semente e terra, fermento e farinha, uma moeda perdida, um filho perdido, uma dívida, um casamento. Marcos diz que esse era o jeito normal de ele ensinar as multidões: “Sem parábolas não lhes falava” (Marcos 4:34).
Uma armadilha em forma de história
O mashal mais famoso da Bíblia hebraica é uma armadilha. O rei Davi tinha tomado Bate-Seba e tramado a morte do marido dela. O profeta Natã chega com o que parece um caso para o rei julgar: um homem rico, dono de muitos rebanhos, toma a única cordeirinha de um pobre para servir a um visitante. Davi fica furioso. Esse homem merece morrer!
Natã disse a Davi: “Você é esse homem!”
A parábola passa por baixo das defesas. Você dá o veredito sobre a história e só depois percebe que está dentro dela. Jesus faz o mesmo. Quando um especialista na lei pergunta “E quem é o meu próximo?” (Lucas 10:29), ele conta a história de um samaritano que para na estrada de Jericó e faz o próprio homem responder: o próximo é “aquele que teve misericórdia dele” (Lucas 10:37). Em Jerusalém, os principais sacerdotes entendem na hora uma das histórias dele: “perceberam que ele havia contado a parábola contra eles” (Marcos 12:12).
Histórias que escondem
Marcos acrescenta uma ideia mais dura. Depois da parábola do semeador, os discípulos perguntam em particular sobre as parábolas, e Jesus responde com palavras do chamado de Isaías.
A vocês é dado o mistério do Reino de Deus, mas aos que estão de fora, todas as coisas são ditas por parábolas, para que ‘vendo, vejam e não percebam, e ouvindo, ouçam e não entendam’
Isaías tinha ouvido que a pregação dele endureceria os ouvintes (Isaías 6:9–10). Lida ao pé da letra, a frase de Marcos faz da parábola um véu. Mateus suaviza a gramática: Jesus fala por parábolas “porque vendo, não veem” (Mateus 13:13), como se a cegueira viesse antes. Há séculos se discute o sentido dessas linhas. Quase todos concordam num ponto: a parábola não entrega o significado de bandeja. Ela pede um segundo olhar, e quem volta para perguntar recebe a explicação.
Quem tem ouvidos
Por isso Jesus termina com um desafio, não com uma lição de moral: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Marcos 4:9). Marcos diz que ele ensinava “conforme podiam ouvir” e explicava tudo aos discípulos em particular (Marcos 4:33–34). Em 1935, o estudioso britânico C. H. Dodd descreveu a parábola como uma imagem tirada da natureza ou da vida comum que deixa a mente na dúvida sobre como aplicá-la, o bastante para fazê-la pensar.
Os rabinos depois de Jesus contaram centenas de parábolas, muitas delas sobre um rei. As de Jesus ficaram porque deixam trabalho para quem ouve. O irmão mais velho do filho pródigo continua do lado de fora da festa, e cabe ao leitor decidir se ele entra. O semeador, uma das poucas parábolas que os Evangelhos explicam linha por linha, está em Qual o significado da parábola do semeador?
Fontes
- Marcos 4:1–34; 12:1–12
- Mateus 13:10–17, 34–35; Lucas 10:25–37
- 2 Samuel 12:1–7; Isaías 6:9–10; Salmos 78:2; Ezequiel 17:2
- C. H. Dodd, The Parables of the Kingdom (1935)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.