A resposta curta
Porque, pelo direito internacional, um bloqueio é um ato de guerra. “Quarentena” deu um nome mais brando ao mesmo cerco naval em volta de Cuba, limitado a armas ofensivas, e evitou a comparação com o bloqueio soviético de Berlim, em 1948. Foi anunciada em 22 de outubro de 1962 e começou a valer no dia 24.
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Seis dias de debate secreto
A partir de 16 de outubro de 1962, uma dúzia de assessores, o grupo que logo seria chamado de ExComm, se reuniu em volta da mesa da Sala do Gabinete, enquanto microfones escondidos gravavam tudo. O primeiro impulso foi bombardear as bases. Depois, as opções se multiplicaram: ataques aéreos, invasão, bloqueio, negociação. O Estado-Maior Conjunto queria atacar. Em 19 de outubro, o chefe da Força Aérea, general Curtis LeMay, disse a Kennedy que um bloqueio seria “quase tão ruim quanto o apaziguamento em Munique”.
O secretário de Defesa, Robert McNamara, defendeu o contrário. Um bloqueio daria a Kruschev tempo para pensar e uma saída para recuar, disse ele; um bombardeio não deixaria nenhuma. Robert Kennedy era contra um ataque de surpresa, e o presidente escolheu o caminho mais lento.
Bloqueio ou quarentena?
Pelo direito internacional, um bloqueio é um ato de guerra, e os Estados Unidos não estavam em guerra. Os advogados do Departamento de Estado foram atrás de uma base jurídica mais sólida. Em 19 de outubro, Leonard Meeker, consultor jurídico adjunto do departamento, registrou que uma quarentena defensiva de Cuba envolveria uso da força e, por isso, precisaria do apoio das repúblicas americanas pelo Tratado do Rio, como medida regional permitida pela Carta da ONU. A Organização dos Estados Americanos votou esse apoio em 23 de outubro.
A ata do Conselho de Segurança Nacional de 21 de outubro, véspera do discurso, registra a escolha:
Debateu-se se as nossas ações deveriam ser descritas como bloqueio ou como quarentena. Embora o sentido jurídico das duas palavras seja idêntico, o secretário Rusk disse preferir “quarentena” por razões políticas, já que evita a comparação com o bloqueio de Berlim.
A resposta honesta, portanto, tem duas camadas. No direito, a palavra mais suave mudava pouco, e Kennedy observou que um bloqueio total ainda poderia vir depois. Na política, mudava muito. A quarentena barrava só armas ofensivas, não comida nem combustível, e não convidava à comparação com o bloqueio soviético de Berlim, em 1948. A palavra tinha até um precedente americano: em 1937, Franklin Roosevelt pediu uma “quarentena” contra as nações agressoras.
O discurso e a proclamação
Kennedy anunciou a medida na televisão às sete da noite da segunda-feira, 22 de outubro:
Para deter essa escalada ofensiva, está sendo iniciada uma quarentena rigorosa sobre todo equipamento militar ofensivo enviado a Cuba. Todos os navios de qualquer tipo com destino a Cuba, de qualquer país ou porto, serão obrigados a voltar se levarem carga de armas ofensivas.
Duas frases depois, ele mesmo fez a comparação com Berlim: os Estados Unidos não estavam cortando o essencial para a vida, como os soviéticos tinham tentado fazer no bloqueio de Berlim de 1948.
A ordem formal, a Proclamação 3504, assinada na noite seguinte, não usa nenhuma das duas palavras. Manda as forças americanas interceptar a entrega de armas ofensivas, lista quais são, de mísseis terra-terra a bombardeiros, e acrescenta que a força só deve ser usada na medida do necessário. Entrou em vigor em 24 de outubro, às duas da tarde no horário de Greenwich, dez da manhã em Washington.
Olho no olho
Naquela quarta-feira, navios de guerra americanos esperavam na linha, em pleno Atlântico, e o Comando Aéreo Estratégico passou para DEFCON 2. Então chegou a notícia: os navios soviéticos tinham parado. O secretário de Estado, Dean Rusk, disse, segundo a Saturday Evening Post de dezembro: “Estamos olho no olho, e acho que o outro sujeito piscou.”
A famosa piscada tinha vindo um dia antes. Os arquivos soviéticos abertos depois de 1991 mostram que Kruschev, depois de uma noite no Kremlin à espera de uma invasão que não veio, mandou os navios com mísseis voltarem em 23 de outubro. A quarentena barrou armas novas, mas não os mísseis que já estavam em Cuba, onde as equipes trabalhavam a noite toda. A saída só veio depois do Sábado Negro, e a história inteira está em o que foi a Crise dos Mísseis.
Fontes
- John F. Kennedy, pronunciamento à nação, 22 de outubro de 1962, e Proclamação 3504, 23 de outubro de 1962 (American Presidency Project)
- FRUS 1961–1963, vol. XI, docs. 31 e 38 (reunião no Departamento de Estado de 19 de outubro e ata do Conselho de Segurança Nacional de 21 de outubro de 1962)
- Ernest R. May e Philip D. Zelikow (orgs.), The Kennedy Tapes (1997)
- Dean Rusk, citado na Saturday Evening Post, 8 de dezembro de 1962