A Guerra Fria · Fatos

O que aconteceu no ‘Sábado Negro’ de 1962?

A resposta curta

Em 27 de outubro de 1962, o Sábado Negro, tido como o dia mais perigoso da crise, uma segunda carta de Kruschev pediu a retirada dos mísseis americanos da Turquia, um míssil soviético derrubou sobre Cuba o U-2 do major Rudolf Anderson, que morreu, e um submarino soviético quase disparou um torpedo nuclear. À noite, Washington propôs um acordo secreto.

Revisado em

A carta de sexta, a carta de sábado

O dia começou com um enigma. Na sexta-feira, 26 de outubro, uma longa carta de Kruschev, quase pessoal, tinha chegado pedaço por pedaço. Ele falava do “nó da guerra” e avisava: “quanto mais nós dois puxarmos, mais apertado esse nó vai ficar”. A proposta era simples: os mísseis sairiam se os Estados Unidos prometessem não invadir Cuba.

Às dez da manhã de sábado, no horário de Washington, a Rádio Moscou leu uma segunda carta, mais fria, com um preço novo: os mísseis Jupiter americanos na Turquia. As fitas do ExComm registram a confusão sobre qual carta falava por Moscou. Kennedy temia que, para qualquer observador racional, a proposta parecesse “uma troca muito justa”.

Um piloto morto sobre Cuba

No fim da manhã, sobre o leste de Cuba, uma bateria soviética de mísseis antiaéreos disparou contra um U-2 americano em missão fotográfica. O piloto, o major Rudolf Anderson, de 35 anos, casado e pai de dois meninos pequenos, morreu. Oficiais soviéticos na ilha deram a ordem por conta própria, sem consultar Moscou. Anderson foi o único homem morto por fogo inimigo na crise. Recebeu postumamente a Cruz da Força Aérea, a primeira da história, e o corpo voltou aos Estados Unidos em 4 de novembro. Partes do avião estão expostas em Havana.

Não foram os únicos tiros do dia. Canhões cubanos dispararam contra jatos de reconhecimento americanos que voavam baixo. Bem mais ao norte, um U-2 que coletava amostras do ar, saído do Alasca, se perdeu sobre o Ártico soviético, na região de Chukotka, e caças soviéticos decolaram às pressas antes que ele achasse o caminho de volta. Em Washington, o Estado-Maior Conjunto pressionava por ataques aéreos até segunda-feira, seguidos de uma invasão.

Havana, e um submarino no mar

Em Havana, Fidel Castro achava que um ataque americano era iminente. Escreveu a Kruschev que, se os americanos invadissem, aquele seria o momento “de eliminar esse perigo para sempre”, palavras que Kruschev entendeu como um pedido de ataque nuclear soviético. No Atlântico, o submarino B-59, encurralado por contratorpedeiros americanos e quase sem ar, esteve perto de disparar um torpedo nuclear, até que, segundo os relatos da tripulação, Vassili Arkhipov se recusou a concordar.

19:45, Departamento de Justiça

À noite, o presidente mandou o irmão conversar com o embaixador soviético, Anatoli Dobrynin. O memorando que o próprio Robert Kennedy escreveu sobre o encontro, três dias depois, para o secretário de Estado, Dean Rusk, registra o aviso:

Eu disse a ele que aquela era uma reviravolta extremamente grave. Teríamos de tomar certas decisões nas próximas 12 ou talvez 24 horas. Restava muito pouco tempo.

Robert F. Kennedy, memorando a Dean Rusk, 30 de outubro de 1962 (FRUS 1961–1963, vol. XI, doc. 96)

As bases tinham de sair, disse ele, e fez questão de frisar que não era um ultimato, só a constatação de um fato. A resposta escrita do presidente, divulgada naquela noite, aceitava a oferta da primeira carta: os mísseis sairiam, e os Estados Unidos se comprometeriam a não invadir. Sobre a Turquia, não podia haver acordo público. Mas os Jupiter, disse Robert Kennedy a Dobrynin, iriam embora em quatro ou cinco meses, desde que Moscou ficasse calada. O desfecho das duas metades está em qual foi o acordo.

Ao sair da Casa Branca, tarde da noite, o secretário de Defesa, Robert McNamara, pensou que talvez nunca mais vivesse para ver outro sábado à noite. Em Moscou, já era domingo de manhã, e o relatório de Dobrynin estava a caminho de Kruschev. Em poucas horas, a Rádio Moscou anunciaria que os mísseis iam voltar para casa.

Fontes

  • Robert F. Kennedy, memorando a Dean Rusk, 30 de outubro de 1962 (FRUS 1961–1963, vol. XI, doc. 96)
  • Nikita Kruschev a John F. Kennedy, 26 e 27 de outubro de 1962 (FRUS 1961–1963, vol. XI, docs. 84 e 91)
  • As fitas do ExComm, 27 de outubro de 1962 (Biblioteca Presidencial John F. Kennedy)
  • Michael Dobbs, One Minute to Midnight (2008)