A Guerra Fria · Mitos

O ‘telefone vermelho’ entre Washington e Moscou existiu?

A resposta curta

Não como telefone. A linha direta aberta entre Washington e Moscou em agosto de 1963 era um sistema de teletipos: as mensagens eram datilografadas, cifradas e enviadas por cabo via Londres, Copenhague, Estocolmo e Helsinque, com um circuito de rádio de reserva via Tânger. O telefone vermelho vem do cinema de 1964, de Dr. Fantástico e Limite de segurança.

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Por que as capitais queriam um fio

Na Crise dos Mísseis, Kennedy e Kruschev conversavam quase só por carta, e carta demora. A longa mensagem de Kruschev de 26 de outubro de 1962 chegou aos pedaços; em 28 de outubro, ele mandou ler a resposta na Rádio Moscou porque um telegrama levaria tempo demais. Os dois governos tiraram a mesma conclusão. Kennedy disse isso com todas as letras na formatura da American University, em 10 de junho de 1963:

Um passo nessa direção é o acordo proposto para uma linha direta entre Moscou e Washington, para evitar, dos dois lados, os atrasos perigosos, os mal-entendidos e as leituras erradas das ações do outro que possam ocorrer num momento de crise.

John F. Kennedy, discurso de formatura na American University, Washington, 10 de junho de 1963

Dez dias depois, em 20 de junho, delegados americanos e soviéticos nas negociações de desarmamento em Genebra assinaram um memorando de uma página. As primeiras palavras dizem para que ele servia: para uso em caso de emergência.

O que a linha direta era de verdade

O anexo do memorando descreve o equipamento, e nada ali é telefone. Cada ponta tinha um terminal com aparelhos de telégrafo e teletipo. As mensagens corriam por um circuito telegráfico por fio, ligado o tempo todo, na rota Washington, Londres, Copenhague, Estocolmo, Helsinque, Moscou, enquanto um circuito de rádio via Tânger servia para a coordenação entre os operadores e ficava de prontidão caso o cabo se rompesse. Moscou escrevia em russo, e Washington em inglês; cada lado traduzia o que recebia.

Os dois governos chegaram a trocar máquinas. Os soviéticos forneceram os teletipos em russo para a ponta americana, os americanos forneceram os teletipos em inglês para Moscou, e as duas pontas tinham equipamento de criptografia, com as fitas de chave entregues pelas embaixadas. Do lado americano, o terminal ficava no Pentágono. Em 1963, não havia telefone para o Kremlin na mesa do presidente, nem vermelho nem de cor nenhuma.

A raposa marrom

A linha entrou em funcionamento no fim do verão do hemisfério norte, em 1963. O primeiro teste foi um exercício de datilografia, a frase inglesa sobre uma raposa marrom ligeira e um cachorro preguiçoso, feita para usar todas as letras do teclado. A primeira emergência de verdade veio em junho de 1967, quando o primeiro-ministro soviético, Alexei Kossygin, e o presidente Lyndon Johnson trocaram mensagens por ela durante a Guerra dos Seis Dias, no Oriente Médio.

O sistema mudou com a tecnologia. Um acordo de 1971 acrescentou dois circuitos por satélite, um escolhido por cada lado. Outro, de 1984, acrescentou o fax ao teletipo, que continuou em uso. Durante toda a Guerra Fria, a linha direta continuou sendo um canal escrito, primeiro datilografado e, mais tarde, também transmitido por fax.

De onde veio o telefone vermelho

Do cinema, um ano depois da abertura da linha. Em janeiro de 1964, Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, mostrou um presidente americano numa enorme sala de guerra ligando para o premiê soviético pelo telefone da linha direta. Em outubro, Limite de segurança (Fail-Safe), de Sidney Lumet, baseado num romance de 1962, pôs outro presidente fictício ao telefone com Moscou, com um intérprete ao lado. O público guardou na memória o telefone, e o teletipo caiu no esquecimento.

O fio de verdade importava por um motivo que os filmes entenderam bem: num mundo de destruição mútua assegurada, um mal-entendido podia ser fatal. Ele foi um dos frutos duradouros do acordo que encerrou a crise e dos meses de medo que vieram antes.

Fontes

  • Memorando de Entendimento sobre o Estabelecimento de uma Linha Direta de Comunicação, Genebra, 20 de junho de 1963, com anexo (Avalon Project, Yale Law School)
  • Acordos sobre a Linha Direta de 30 de setembro de 1971 e de 17 de julho de 1984 (Avalon Project)
  • John F. Kennedy, discurso na American University, 10 de junho de 1963 (American Presidency Project)
  • Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick; Limite de segurança (Fail-Safe, 1964), de Sidney Lumet