A Guerra Fria · Pessoas

Quem foi Vassili Arkhipov?

A resposta curta

Vassili Arkhipov (1926–1998), também grafado Vasili, foi um oficial da Marinha soviética. Em 27 de outubro de 1962, a bordo do submarino B-59, acuado pela Marinha americana perto de Cuba, ele se recusou, segundo os relatos dos homens a bordo, a apoiar a ordem do comandante de preparar um torpedo nuclear, e o convenceu a subir à superfície.

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O sobrevivente do K-19

Arkhipov nasceu em 1926 e fez carreira na jovem frota de submarinos da Marinha soviética. Em julho de 1961, era o imediato do K-19, um dos primeiros submarinos soviéticos movidos a energia nuclear e armados com mísseis. Em 4 de julho, durante exercícios no Atlântico Norte, o sistema de refrigeração do reator falhou. Tripulantes montaram à mão uma linha de resfriamento de emergência, e vários dos homens que fizeram o conserto morreram por causa da radiação nas semanas seguintes. Arkhipov sobreviveu. Quinze meses depois, estava de novo no mar, num lugar bem mais perigoso.

Quatro submarinos, quatro torpedos nucleares

A Operação Anadyr, que levou mísseis soviéticos para Cuba em segredo (os motivos estão em por que a União Soviética instalou mísseis em Cuba), mandou também quatro submarinos a diesel da Frota do Norte: B-4, B-36, B-59 e B-130. Cada um levava um torpedo com ogiva nuclear. Arkhipov navegava no B-59 como chefe do estado-maior da brigada. O comandante do submarino era Valentin Savitski.

No fim de outubro, a Marinha americana caçava os quatro. Em 27 de outubro, um grupo liderado pelo porta-aviões USS Randolph encurralou o B-59 perto da linha da quarentena, e contratorpedeiros lançaram pequenas cargas de profundidade de treino, um sinal para subir. Washington tinha explicado o sinal a Moscou. Ninguém repassou a explicação aos homens debaixo d’água. A bordo, as baterias estavam quase no fim, o calor passava de 45 °C, e fazia dias que não chegava nenhuma notícia de Moscou.

A ordem e a recusa

Savitski concluiu que a guerra talvez já tivesse começado e mandou preparar o torpedo nuclear. Vadim Orlov, oficial de inteligência de sinais a bordo, contou mais tarde que o comandante gritava: “Vamos morrer, mas vamos afundar todos eles.” Na versão mais conhecida, o disparo exigia o acordo dos três oficiais mais graduados: Savitski, o oficial político Ivan Maslennikov e Arkhipov.

Arkhipov disse não. Acalmou o comandante e o convenceu a subir à superfície. Por volta das nove da noite, o B-59 emergiu no meio dos navios americanos, sob a luz dos holofotes. Os contratorpedeiros cercaram o submarino e, no fim, o deixaram voltar para casa.

O que os historiadores ainda discutem

A cena depende da memória de quem estava lá, sobretudo a de Orlov, que só ficou amplamente conhecida na época de uma conferência em Havana, em outubro de 2002, nos quarenta anos da crise. Alguns veteranos da operação duvidaram que um comandante disparasse sem ordem de Moscou. Os historiadores ainda discutem os detalhes: até onde a ordem chegou, quão perto o torpedo esteve de ser lançado e o que cada oficial disse de fato. Ninguém contesta o desfecho. O B-59 subiu, e o torpedo ficou no tubo.

“Salvou o mundo”?

Arkhipov continuou na Marinha, chegou a vice-almirante e morreu em 1998, antes que o mundo conhecesse o nome dele. Na conferência de Havana, Thomas Blanton, do National Security Archive, disse ao Boston Globe que “um sujeito chamado Vassili Arkhipov salvou o mundo”. Em 2017, postumamente, foi o primeiro a receber o prêmio Future of Life.

Não dá para provar que a recusa de um homem salvou o mundo. O que os registros mostram é que, no Sábado Negro, muitas vezes chamado de o dia mais perigoso da crise, uma arma capaz de começar uma guerra nuclear estava nas mãos de oficiais exaustos, longe de Moscou, e um deles disse não.

Fontes

  • National Security Archive, “The Submarines of October: U.S. and Soviet Naval Encounters During the Cuban Missile Crisis” (outubro de 2002)
  • Thomas Blanton, citado no Boston Globe, 13 de outubro de 2002
  • Future of Life Institute, prêmio Future of Life de 2017
  • Michael Dobbs, One Minute to Midnight (2008)