A Guerra Fria · Fatos

Por que a União Soviética instalou mísseis em Cuba?

A resposta curta

Por dois motivos que Kruschev deu nas memórias: proteger a Cuba de Fidel Castro da invasão americana que ele esperava depois da Baía dos Porcos e responder aos mísseis americanos perto das fronteiras soviéticas, sobretudo os quinze Jupiter na Turquia. De Cuba, os mísseis soviéticos chegariam a Washington, numa corrida nuclear em que os americanos estavam muito à frente.

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Os motivos de Moscou, nas palavras de Moscou

Nikita Kruschev contou a versão dele em memórias gravadas em fita depois que perdeu o poder, contrabandeadas para o Ocidente e publicadas em 1970 com o título Khrushchev Remembers. Ele dá dois motivos. O primeiro era a própria Cuba: depois do desembarque fracassado de abril de 1961, ele esperava que os Estados Unidos tentassem de novo, agora com as próprias tropas. O segundo era o equilíbrio de forças. Bases e mísseis americanos cercavam a União Soviética, e os foguetes soviéticos não tinham como responder à altura. Os mísseis de alcance médio dele chegavam à Europa Ocidental, mas não aos Estados Unidos. De Cuba, a 145 quilômetros da Flórida, alcançariam Washington.

A ideia surgiu em maio de 1962, numa visita à Bulgária, vizinha da Turquia no mar Negro. As memórias resumem o espírito da coisa numa frase: “já estava mais do que na hora de a América aprender o que é ter a própria terra e o próprio povo ameaçados”.

Proteger Castro

O medo de invasão tinha fundamento. A invasão da Baía dos Porcos foi planejada e paga pela CIA, que também treinou os exilados. E era só o começo. Em novembro de 1961, Kennedy aprovou a Operação Mongoose, uma campanha secreta “para ajudar Cuba a derrubar o regime comunista”, com o apoio do irmão, Robert, e a CIA tentou mandar envenenar Castro. Em Havana e em Moscou, a conclusão foi a mesma: os americanos tinham tentado uma vez com exilados e, na próxima, viriam eles mesmos. Castro aceitou os mísseis para proteger a revolução.

Os Jupiter e a corrida dos mísseis

O segundo motivo estava ali ao lado da União Soviética. Em 1962, quinze mísseis Jupiter americanos entraram em operação na base aérea de Çiğli, perto de Izmir, no oeste da Turquia, ao alcance de Moscou; outros trinta ficavam no sul da Itália. Washington percebeu o paralelo, e a fita gravou. Em 16 de outubro, tentando entender por que Kruschev correria um risco desses, Kennedy disse aos assessores: “É como se de repente começássemos a pôr um número grande de mísseis de alcance médio na Turquia.” O assessor de segurança nacional, McGeorge Bundy, respondeu: “Bom, nós fizemos isso, senhor presidente.”

Por trás disso havia uma corrida armamentista desigual. Na campanha de 1960, Kennedy falava de uma suposta vantagem soviética em mísseis, mas em outubro de 1961 o vice-secretário de Defesa, Roswell Gilpatric, deixou claro em público que a vantagem era dos Estados Unidos. E era mesmo: as ogivas nucleares americanas superavam as soviéticas numa proporção de cerca de 25.000 para 3.300. Muitos historiadores acrescentam que os mísseis em Cuba eram um atalho, que diminuía a diferença de uma vez, sem esperar anos por foguetes de longo alcance.

Por que em segredo: a Operação Anadyr

Castro preferiria fazer tudo às claras, com um tratado publicado, como os americanos tinham feito com a Turquia. Kruschev exigiu segredo: os mísseis precisavam estar prontos antes que Washington descobrisse. Se os americanos só os achassem quando já pudessem disparar, raciocinou ele nas memórias, iam “pensar duas vezes”. Alguns em Moscou duvidavam do plano, e ele passou por cima deles.

Para enganar até os soldados, a operação recebeu o nome de um rio e de uma cidade do extremo norte soviético, perto do Alasca: Anadyr. Eles embarcaram com esquis e casacos de inverno e só abriram as ordens lacradas em alto-mar. Cerca de 42 mil homens foram para Cuba, com mísseis de alcance médio e armas nucleares menores, de campo de batalha, que Washington só descobriria em 1992.

O plano dependia de não ser visto, e falhou. Em 14 de outubro de 1962, um U-2 americano fotografou as bases antes que ficassem prontas, e a crise começou. Quando revelou os mísseis, em 22 de outubro, Kennedy chamou a manobra de uma ameaça “clandestina, imprudente e provocadora” à paz mundial. Moscou chamava aquilo de defesa.

Fontes

  • Nikita Kruschev, Khrushchev Remembers (1970)
  • Reunião do ExComm de 16 de outubro de 1962, fitas da Casa Branca (Biblioteca Presidencial John F. Kennedy)
  • John F. Kennedy, pronunciamento à nação, 22 de outubro de 1962 (American Presidency Project)
  • Aleksandr Fursenko e Timothy Naftali, “One Hell of a Gamble” (1997)