A Guerra Fria · Fatos

Qual foi o acordo que encerrou a Crise dos Mísseis?

A resposta curta

Um acordo em duas metades, fechado no fim de outubro de 1962. Em público, Kruschev aceitou retirar os mísseis de Cuba, e Kennedy prometeu não invadir a ilha. Em segredo, Robert Kennedy garantiu a Moscou que os mísseis Jupiter americanos deixariam a Turquia em poucos meses. Saíram até abril de 1963, e os dois governos negaram a troca por anos.

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Domingo, nove da manhã

O fim veio pelo rádio. Às nove da manhã de domingo, 28 de outubro de 1962, no horário de Washington, a Rádio Moscou leu uma carta de Kruschev a Kennedy. O governo soviético, dizia a carta, tinha mandado desmontar, encaixotar e levar de volta as armas “que o senhor descreve como ofensivas”. Moscou escolheu o rádio porque um telegrama cifrado levaria horas, e o Kremlin temia um ataque americano em um ou dois dias.

Kennedy respondeu no mesmo dia, numa nota curta. Elogiou a decisão “de estadista” de Kruschev e passou logo à etapa seguinte: garantir que os mísseis saíssem de verdade.

A metade pública

O que o mundo viu era simples. Moscou retiraria os mísseis sob observação; Washington suspenderia a quarentena e prometeria não invadir Cuba. Era o que Kennedy tinha oferecido na carta de 27 de outubro: assim que a ONU montasse um esquema de verificação, os Estados Unidos dariam garantias contra uma invasão da ilha.

Em novembro, os cargueiros soviéticos voltaram para casa com os mísseis amarrados no convés, e as tripulações puxavam as lonas para que os aviões americanos pudessem contá-los. Moscou também aceitou levar embora os bombardeiros a jato IL-28. Em 20 de novembro, Kennedy anunciou o fim da quarentena. A pressão sobre o governo de Castro continuaria, disse ele aos jornalistas, mas era “muito diferente de qualquer intenção de lançar uma invasão militar da ilha”.

Um homem ficou de fora. Fidel Castro não foi consultado, soube de tudo pelas agências de notícias e, furioso, não deixou os inspetores da ONU entrarem em Cuba. Sem a inspeção, a promessa de não invadir nunca virou um acordo formal.

A metade secreta

A outra metade foi combinada na noite de 27 de outubro, quando Robert Kennedy recebeu o embaixador soviético, Anatoli Dobrynin, no Departamento de Justiça; o encontro está contado na página do Sábado Negro. Os quinze mísseis Jupiter da Turquia, que a segunda carta de Kruschev exigia, sairiam em quatro ou cinco meses, com uma condição: Moscou nunca poderia dizer isso em público.

Os papéis mostram o cuidado com o segredo. Três dias depois, Robert Kennedy registrou a conversa num memorando para o secretário de Estado, Dean Rusk. Ali, ele afirma ter avisado Dobrynin de que não podia haver troca. Uma frase datilografada no fim desse parágrafo aparece riscada:

Se passasse algum tempo, e, seguindo as suas instruções, mencionei quatro ou cinco meses, eu disse ter certeza de que essas questões poderiam ser resolvidas de forma satisfatória.

Robert F. Kennedy, memorando a Dean Rusk, 30 de outubro de 1962, frase riscada (FRUS 1961–1963, vol. XI, doc. 96)

Em abril de 1963, os Jupiter já tinham deixado a Turquia sem alarde, e os trinta do sul da Itália também; submarinos americanos com mísseis Polaris, no Mediterrâneo, herdaram os alvos deles. Os dois governos negaram qualquer troca, e o segredo só veio à tona nos anos 1980, quando os homens que o tinham guardado começaram a falar.

Quem ganhou?

Em público, Kennedy pareceu o vencedor, e Kruschev, o perdedor. Kennedy pediu aos assessores que não cantassem vitória. Alguns militares viram o contrário: segundo um relato, o chefe da Força Aérea, general Curtis LeMay, resmungou: “Nós perdemos.” Em Moscou, os colegas de Kruschev o afastaram em outubro de 1964 e puseram a aposta cubana na lista dos erros dele. Vista do Kremlin, porém, a conta não era só de perdas: Cuba manteve a revolução, nunca foi invadida, e os Jupiter foram embora.

Kennedy não chegou a ver a queda do rival. Foi assassinado em Dallas, em novembro de 1963, poucos meses depois de os dois governos abrirem uma linha direta entre as capitais e proibirem os testes nucleares na atmosfera, os primeiros passos da era da destruição mútua assegurada.

Fontes

  • Nikita Kruschev a John F. Kennedy, 28 de outubro de 1962, lida na Rádio Moscou
  • John F. Kennedy a Nikita Kruschev, 27 de outubro de 1962, e Robert F. Kennedy a Dean Rusk, 30 de outubro de 1962 (FRUS 1961–1963, vol. XI, docs. 95 e 96)
  • John F. Kennedy, declaração de 28 de outubro de 1962 e entrevista coletiva de 20 de novembro de 1962 (American Presidency Project)
  • Aleksandr Fursenko e Timothy Naftali, “One Hell of a Gamble” (1997)