A resposta curta
Na versão mais conhecida, porque Remo pulou o muro novo do irmão para zombar dele. Tito Lívio dá duas versões: os gêmeos brigaram por causa de um presságio de abutres e Remo caiu na confusão, ou ele saltou o muro ainda em construção e Rômulo o matou num acesso de raiva. Em qualquer caso, é lenda, não história.
Revisado em
Uma briga por causa de pássaros
Os gêmeos tinham sido jogados no Tibre ainda bebês, amamentados por uma loba e criados por um pastor. Já adultos, resolveram fundar uma cidade no lugar onde tinham sido salvos. Só que gêmeos não têm irmão mais velho para decidir quem manda, e eles foram perguntar aos deuses. Cada um observou o céu do seu morro. Remo, no Aventino, viu seis abutres primeiro. Rômulo, no Palatino, viu doze logo depois. Um lado reclamava o trono por ter visto antes; o outro, por ter visto o dobro (Tito Lívio 1.6–7). Plutarco acrescenta que, segundo alguns, Rômulo mentiu sobre os doze até que eles aparecessem de verdade (Rômulo 9).
Aqui Lívio oferece dois finais. No primeiro, a discussão vira briga e Remo é morto no meio da multidão. No segundo, que ele chama de versão mais comum, Remo debocha do irmão pulando os muros novos, e Rômulo o mata de raiva, jurando o mesmo fim para qualquer outro que saltasse os seus muros.
Por que um pulo podia ser crime
Para um romano, muralha não era só um monte de pedras. Plutarco conta que Rômulo traçou o limite da cidade com um arado, erguendo a lâmina onde ficariam as portas (Rômulo 11). Aquela linha era sagrada. Nas Questões Romanas (27), Plutarco pergunta por que os romanos consideravam sagrados os muros, mas não as portas, e cita Remo, morto por saltar um lugar santo.
O pulo também era uma provocação. Muro que um homem pula não segura exército nenhum, e Remo estava dizendo a todos que a cidade do irmão era uma piada. Na lenda, Rômulo responde com a primeira lei que a cidade conhece: os seus muros não se atravessam.
Houve quem pusesse a culpa em outro
Plutarco registra que, para alguns, o assassino não foi Rômulo, mas um companheiro chamado Céler, que depois fugiu para a Etrúria; por causa dele, diz, os romanos chamavam de celeres os corredores velozes (Rômulo 10). O latim celer, rápido, é o pai do nosso “célere”; Plutarco transforma a palavra numa lembrança do assassino. O poeta Ovídio conta a história assim, com Céler dando o golpe e Rômulo engolindo o choro no enterro (Fastos 4.837–856). Dionísio de Halicarnasso escreve que Rômulo ficou tão abalado que quis morrer (Antiguidades Romanas 1.87). Ovídio liga até uma festa ao gêmeo morto: as Lemúrias, quando os romanos espantavam em maio os mortos inquietos, teriam sido antes as Remúrias, por causa de Remo (Fastos 5.451–484).
Uma cidade nascida do sangue de um irmão
Os romanos da época das guerras civis leram a história como uma maldição. Horácio escreveu que um destino amargo perseguia os romanos desde que o sangue do inocente Remo correu pelo chão (Epodos 7). O poeta Lucano disse que os primeiros muros de Roma ficaram molhados com o sangue de um irmão (Farsália 1.95). Santo Agostinho, por volta de 420, pôs Rômulo ao lado de Caim, que matou o irmão Abel e depois construiu a primeira cidade da Bíblia (Gênesis 4:17). Duas cidades, escreveu, fundadas sobre o mesmo crime (A Cidade de Deus 15.5). O lado de Caim está em por que Caim matou Abel.
Aconteceu mesmo? E por que o nome de Rômulo?
Não. Os gêmeos pertencem à lenda; o que a arqueologia diz sobre a Roma primitiva está em como Roma foi fundada. Lívio diz apenas que a cidade levou o nome do fundador, mas Plutarco já listava outras teorias, entre elas uma troiana chamada Rhome (Rômulo 1). Muitos historiadores acham que o nome Roma veio primeiro e o fundador foi inventado para explicá-lo. O historiador T. P. Wiseman defende que Remo entrou na história ainda depois, talvez por volta de 300 a.C. E o nome fechou o ciclo: o último imperador do Ocidente, deposto em 476, era um menino chamado Rômulo.
Fontes
- Tito Lívio, História de Roma 1.6–7
- Plutarco, Vida de Rômulo 1, 9–11; Questões Romanas 27
- Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas 1.85–87
- Ovídio, Fastos 4.807–862 e 5.451–484; Horácio, Epodos 7; Lucano, Farsália 1.95
- Santo Agostinho, A Cidade de Deus 15.5; T. P. Wiseman, Remus: A Roman Myth (1995)