A Bíblia · Fatos

Por que Saul tinha inveja de Davi?

A resposta curta

Porque o sucesso de Davi ameaçava o trono. Depois de Golias, as mulheres cantaram que Saul tinha matado milhares, e Davi, dezenas de milhares. Saul viu ali um rival: “O que mais falta a ele senão o reino?” Samuel já tinha avisado que Deus daria o reino a alguém melhor, e Saul via que o Senhor estava com Davi.

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A canção

Davi volta do vale de Elá como herói. As mulheres saem de todas as cidades de Israel com tamborins e danças para receber o rei Saul (1 Samuel 18:6), cantando uma canção de dois versos.

As mulheres dançavam e cantavam umas para as outras: “Saul matou os seus milhares, e Davi os seus dezenas de milhares.”

1 Samuel 18:7

Saul faz as contas. “Atribuíram a Davi dezenas de milhares, mas a mim atribuíram apenas milhares. O que mais falta a ele senão o reino?” (18:8). E o narrador acrescenta uma frase curta e certeira: a partir daquele dia, Saul passou a olhar para Davi com suspeita (18:9). O verbo hebraico vem da palavra olho. Saul não tira mais os olhos dele.

As mulheres quiseram ofender o rei?

Provavelmente não. A poesia hebraica gosta de responder a um número com outro maior no segundo verso, e mil e dez mil formam um par clássico: “Mil poderão cair ao seu lado, e dez mil à sua direita” (Salmos 91:7), ou “Como poderia um só perseguir mil, e dois colocarem dez mil em fuga” (Deuteronômio 32:30). Nesse padrão, a canção homenageia os dois. Saul ouve uma comparação. E não é o único: anos depois, os filisteus repetem os mesmos versos duas vezes (21:11; 29:5), e os servos do rei Aquis chegam a chamar Davi de “o rei da terra”.

Um rei que já sabia que ia perder

A canção toca numa ferida antiga. Quando Saul desobedeceu à ordem de Deus sobre os amalequitas, Samuel foi direto:

O SENHOR rasgou de você o reino de Israel hoje, e o entregou a alguém próximo de você, que é melhor do que você.

1 Samuel 15:28

Na hora, Samuel não disse quem era. Depois, o Espírito do Senhor se retirou de Saul, e um espírito maligno passou a atormentá-lo (16:14). O jovem chamado para acalmá-lo com a harpa foi justamente Davi, e no começo Saul passou a amá-lo muito (16:21). Agora o rei olha para o seu músico e se pergunta se é ele o tal alguém próximo. O texto mostra a raiz de tudo: “Saul tinha medo de Davi, porque o SENHOR estava com ele, mas havia se afastado de Saul” (18:12). No fundo, a inveja de Saul é medo.

Da inveja ao plano de morte

A situação piora depressa. No dia seguinte, enquanto Davi toca, Saul atira a lança: “Cravarei Davi na parede!” (18:11). Depois o manda para a guerra como comandante de mil soldados, na esperança de que os filisteus deem cabo dele. Promete a filha mais velha, Merabe, e a entrega a outro homem. Quando a caçula, Mical, se apaixona por Davi, Saul pede como dote cem prepúcios de filisteus, porque o plano era que Davi morresse nas mãos deles (18:25). Davi traz duzentos. Cada armadilha deixa Davi mais querido, e Saul vira inimigo permanente dele (18:29). Por fim, ordena ao próprio filho e aos servos que o matem (19:1).

O problema do herdeiro

Por baixo de tudo há o medo de um pai. Jônatas, o príncipe herdeiro, ama Davi como a si mesmo e lhe deu o próprio manto e a própria espada (18:1–4). Quando Jônatas acoberta o amigo na festa da lua nova, Saul explode.

Pois enquanto o filho de Jessé viver sobre a terra, nem você nem a sua realeza estarão seguros.

1 Samuel 20:31

Saul teme pela dinastia tanto quanto por si mesmo. Ele enxerga o que Jônatas se recusa a ver: Davi está entre o filho e o trono.

Os leitores divergem sobre Saul: uma figura trágica, escolhida e depois abandonada, ou o retrato da paranoia de um governante. Muitos historiadores observam que a história é contada do lado de Davi, para defender o direito dele à coroa de Saul. O que aconteceu quando o perseguido teve o rei nas mãos está em por que Davi poupou a vida de Saul.

Fontes

  • 1 Samuel 15:10–35; 16:14–23; 18:1–30; 19:1–10; 20:24–34
  • 1 Samuel 21:11; 29:5
  • Salmos 91:7; Deuteronômio 32:30

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.