A Bíblia · Números

Quanto tempo Jesus ficou no túmulo?

A resposta curta

Cerca de um dia e meio pelo nosso relógio. Ele foi sepultado no fim da tarde de sexta-feira, e as mulheres acharam o túmulo vazio de madrugada, no domingo: umas 36 horas. Mas os dias eram contados incluindo as pontas, então sexta, sábado e domingo davam três dias, e o domingo era “o terceiro dia”.

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Pelo relógio

Marcos dá as horas. Jesus morreu à nona hora, por volta das três da tarde de sexta-feira (Marcos 15:34–37). Depois disso, José de Arimateia ainda precisou pedir o corpo a Pilatos, descê-lo da cruz, envolvê-lo em linho e fechar o túmulo antes do pôr do sol, quando começava o sábado (Lucas 23:54). No domingo, Maria Madalena chegou “quando ainda estava escuro” (João 20:1); em Marcos, o sol já tinha nascido (Marcos 16:2).

Ou seja: o corpo ficou no túmulo das cinco ou seis da tarde de sexta até as cinco ou seis da manhã de domingo. Umas 36 horas, talvez um pouco mais. E repare no que os Evangelhos não dizem. Ninguém, nos relatos, vê a ressurreição acontecer, e nenhum Evangelho dá a hora dela. Eles dizem apenas quando o túmulo foi encontrado vazio.

A conta antiga

O dia judaico ia de um pôr do sol a outro, e qualquer pedaço de dia contava como um dia. A tarde de sexta era o primeiro dia. O sábado, da noite de sexta ao fim da tarde seguinte, era o segundo. Com o pôr do sol de sábado começava o terceiro. Lucas põe isso na boca de um discípulo, no domingo à tarde, a caminho de Emaús:

Mas nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel. Sim, e além de tudo isso, hoje já é o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram.

Lucas 24:21

A Bíblia hebraica conta do mesmo jeito. José deixa os irmãos “sob custódia por três dias” e fala com eles “ao terceiro dia” (Gênesis 42:17–18). O rei Roboão diz ao povo: “Voltem a mim daqui a três dias”, e o povo volta “no terceiro dia, conforme o rei havia pedido” (2 Crônicas 10:5, 12). Ester pede um jejum de três dias, “nem de noite nem de dia”, e entra no palácio “no terceiro dia” (Ester 4:16; 5:1).

Quatro jeitos de dizer o mesmo

O Novo Testamento descreve a espera de quatro formas:

  • “Ao terceiro dia”: a mais comum, em Mateus 16:21, Lucas 24:7 e no credo antigo citado por Paulo, que “ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Coríntios 15:4).
  • “Depois de três dias”: Marcos 8:31. Mateus, recontando a mesma frase, escreve “no terceiro dia”.
  • “Em três dias”: João 2:19, “Destruam este templo, e em três dias eu o levantarei.”
  • “Três dias e três noites”: Mateus 12:40, comparando com Jonas no peixe (Jonas 1:17).

Alguém entendia isso como prazos diferentes? Os principais sacerdotes de Mateus, não.

Senhor, lembramos do que aquele enganador disse enquanto ainda estava vivo: ‘Depois de três dias eu ressuscitarei.’ Portanto, ordene que o túmulo seja bem guardado até o terceiro dia,

Mateus 27:63–64

“Depois de três dias” se vigia “até o terceiro dia”. Até “três dias e três noites” era um jeito de falar: um escravo egípcio que não comia “havia três dias e três noites” diz logo em seguida que adoeceu “há três dias” (1 Samuel 30:12–13). Alguns grupos leem Mateus 12:40 como 72 horas exatas e mudam a crucificação para quarta-feira; a maioria dos leitores fica com a sexta, como explica a página sobre o dia da morte de Jesus.

O dia do meio

O sábado é o dia calado dos Evangelhos. As mulheres descansam, como manda a Lei (Lucas 23:56). O único fato que Mateus registra é aquela visita a Pilatos “no dia seguinte, que era o dia após a Preparação”, e um selo posto na pedra (Mateus 27:62–66).

A tradição cristã preencheu o silêncio. A primeira carta de Pedro diz que Cristo “foi e pregou aos espíritos em prisão” (1 Pedro 3:19), e o Credo que os católicos rezam no Brasil diz que ele “desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia”. No Brasil esse dia é o Sábado de Aleluia, de vigília e espera, e em muitas cidades também da malhação do Judas. A Vigília Pascal começa depois que escurece: pela conta antiga, a hora em que o terceiro dia começava.

Fontes

  • Marcos 15:33–16:2; Lucas 23:54–24:21; João 20:1
  • Mateus 12:38–40; 16:21; 27:62–66; Marcos 8:31; João 2:19–21; 1 Coríntios 15:3–4
  • Gênesis 42:17–18; 2 Crônicas 10:5–12; Ester 4:16–5:1; 1 Samuel 30:12–13; Jonas 1:17
  • 1 Pedro 3:18–20; Credo dos Apóstolos

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.