A resposta curta
Mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia. Os quatro Evangelhos põem Maria Madalena no túmulo na madrugada de domingo. Marcos acrescenta Maria, mãe de Tiago, e Salomé; Mateus, “a outra Maria”; Lucas, Joana e outras mulheres. João conta tudo pelos olhos de Maria Madalena. Pedro e o discípulo amado só chegaram depois do aviso delas.
Revisado em
Quatro Evangelhos, quatro listas
Os Evangelhos concordam sobre quem chegou primeiro: mulheres, ao raiar do domingo, a manhã depois do sábado. Só não concordam sobre quantas eram. Vale pôr as listas lado a lado.
- Marcos: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé (Marcos 16:1).
- Mateus: Maria Madalena e “a outra Maria” (Mateus 28:1).
- Lucas: Maria Madalena, Joana, Maria, mãe de Tiago, e as outras mulheres que estavam com elas (Lucas 24:10).
- João: Maria Madalena, que chega “quando ainda estava escuro” (João 20:1).
Só um nome aparece nas quatro. A “outra Maria” de Mateus é, muito provavelmente, a mãe de Tiago, porque junto à cruz ele cita “Maria, mãe de Tiago e de José” (Mateus 27:56). Salomé é só de Marcos. No lugar em que Marcos a põe junto à cruz, Mateus fala da “mãe dos filhos de Zebedeu”, e por isso muitos leitores acham que ela era a mãe de Tiago e João. A tradição a chamou de Maria Salomé, mas Marcos diz apenas Salomé. Joana é só de Lucas, que já a tinha apresentado como mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes Antipas (Lucas 8:3).
Daí vem o nome que a devoção popular deu ao grupo: as Três Marias. O nome pegou tanto que, no céu do Brasil, as três estrelas do cinturão de Órion também se chamam Três Marias.
Por que elas foram
Marcos dá o motivo mais simples.
Quando passou o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram especiarias, para que pudessem ir e ungi-lo.
Elas tinham visto o sepultamento na sexta (Marcos 15:47), feito às pressas antes do pôr do sol. Perfumes e óleos eram um último gesto de carinho com o corpo, não um embalsamamento. Em Lucas, elas os preparam na sexta à noite e descansam no sábado, como manda a Lei (Lucas 23:56). Mateus diz só que foram “ver o sepulcro” (Mateus 28:1), porque na sua versão o túmulo estava selado e vigiado. João não dá motivo nenhum: no seu Evangelho, Nicodemos já tinha envolvido o corpo com cerca de cem libras romanas de mirra e aloés (João 19:39–40). Maria simplesmente vai.
O que cada uma encontrou
Em todos os relatos a pedra já foi tirada do lugar. Daí em diante, os detalhes se separam.
- Marcos: um jovem de túnica branca, sentado do lado direito. Elas fogem e não dizem nada a ninguém, “pois estavam com medo”, e ali terminam os manuscritos mais antigos (16:5–8).
- Mateus: um terremoto e um anjo que rola a pedra e se senta nela, enquanto os guardas tremem. Elas saem “com medo e grande alegria”, e Jesus as encontra no caminho (28:2–9).
- Lucas: nenhum corpo e dois homens com roupas resplandecentes. Os apóstolos acham a notícia uma loucura (24:3–11).
- João: primeiro, só o túmulo aberto. Depois, chorando do lado de fora, Maria vê dois anjos de branco e, em seguida, o próprio Jesus (20:11–16).
Então ela correu até Simão Pedro e o outro discípulo a quem Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o colocaram!”
Os homens chegaram depois
Repare no “não sabemos”: até a Maria solitária de João fala no plural. Pedro corre ao túmulo em Lucas e em João, mas só depois do aviso das mulheres. A lista de testemunhas de Paulo, a mais antiga que existe por escrito, cita Cefas, os doze e outros, e nenhuma mulher (1 Coríntios 15:5–8). Naquele mundo, a palavra de uma mulher valia pouco: Josefo diz que mulheres nem deviam testemunhar em tribunal (Antiguidades 4.219). Os Evangelhos dão a elas o primeiro lugar mesmo assim, algo que os historiadores levam em conta ao discutir as evidências da ressurreição. A primeira delas tem a sua própria página: Maria Madalena.
Fontes
- Marcos 15:40–16:8; Mateus 27:55–28:10; Lucas 23:49–24:12; João 19:38–20:18
- Lucas 8:1–3; 1 Coríntios 15:3–8
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 4.219
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.