A resposta curta
Brutus, ou Marco Júnio Bruto em português, foi o senador romano que liderou o complô para matar Júlio César nos Idos de Março de 44 a.C. Lutou contra César, foi perdoado e promovido por ele e acreditava estar salvando a República de um rei. Derrotado em Filipos, em 42 a.C., tirou a própria vida.
Revisado em
Bruto, Brutus e um sobrenome pesado
Em português os livros de história escrevem Bruto, a forma aportuguesada do latim Brutus. Mas o Brasil inteiro conhece o nome em latim por causa de uma frase: “Até tu, Brutus?”, que veio da peça de Shakespeare e virou o jeito clássico de reclamar de uma traição. As duas formas são o mesmo homem: Marco Júnio Bruto, nascido por volta de 85 a.C.
A família dizia descender de Lúcio Júnio Bruto, o homem que expulsou o último rei de Roma em 509 a.C. e fundou a República. Era um nome difícil de carregar. O pai de Brutus foi morto a mando de Pompeu em 77 a.C. A mãe, Servília, era meia-irmã de Catão, o defensor mais rígido da velha República, e por anos foi a mulher que César mais amou (Suetônio, Júlio 50). Um tio o adotou, e por um tempo o nome oficial dele foi Quinto Cepião Bruto. A segunda esposa, Pórcia, era filha de Catão.
Filósofo e agiota
Brutus era sério e estudioso, leitor de filosofia grega e autor de tratados. Cícero dedicou várias obras a ele e deu o seu nome a um diálogo inteiro sobre os oradores romanos, o Brutus (46 a.C.). As cartas particulares de Cícero mostram outro lado. Brutus tinha emprestado dinheiro à cidade de Salamina, em Chipre, a 48% ao ano, e o cobrador dele, Escápcio, cercou a sede do conselho com cavalaria até que cinco conselheiros morreram de fome (Cícero, Cartas a Ático 5.21; 6.1). Cícero ficou horrorizado e, mesmo assim, continuou chamando Brutus de amigo.
Perdoado, promovido e conspirador
Na guerra civil de 49 a.C., Brutus ficou com Pompeu, o homem que tinha matado o pai dele, porque Pompeu representava o Senado. Em Farsália, em 48 a.C., César tinha mandado os oficiais pouparem Brutus, e depois da vitória o recebeu de braços abertos (Plutarco, Bruto 5–6). Fez dele governador da Gália Cisalpina e, em 44 a.C., pretor urbano, um dos cargos mais altos de Roma.
Só que César agora era ditador vitalício, e Roma falava em coroa. Alguém escreveu na estátua do velho libertador: quem dera você estivesse vivo. Na tribuna do próprio Brutus apareceram bilhetes: Brutus, você está dormindo? (Suetônio, Júlio 80; Plutarco, Bruto 9). Cássio o recrutou, e o nome dele deu respeitabilidade ao complô. Pórcia, conta Plutarco, fez um corte na própria coxa para provar que sabia guardar segredo, e só então ele lhe contou o plano (Bruto 13). No dia 15 de março, ele golpeou César com os outros; o boato do “Você também, meu filho?” está em o que César disse de verdade.
Dos Idos a Filipos
Os assassinos esperavam aplausos. Em vez disso, o funeral de César virou tumulto, e Brutus deixou Roma. No Oriente, juntou legiões e cunhou moedas de prata com o próprio retrato de um lado e, do outro, dois punhais, um gorro da liberdade e as letras EID MAR, os Idos de Março. Antes de passar para a Europa, diz Plutarco, uma figura monstruosa apareceu de noite na tenda dele e avisou: você me verá em Filipos (Bruto 36).
E viu. Em outubro de 42 a.C., em Filipos, no norte da Grécia, Antônio e Otaviano enfrentaram os conspiradores duas vezes. Cássio se matou depois da primeira batalha; depois da segunda, Brutus se jogou sobre a espada com a ajuda de um amigo, Estratão (Plutarco, Bruto 52). Antônio cobriu o corpo com o próprio manto púrpura. Ele tinha dito, segundo Plutarco, que só Brutus matou César por achar o gesto nobre, enquanto os outros agiram por ódio e inveja (Bruto 29, 53).
Como ele é lembrado
Dante o pôs no fundo do inferno, mastigado pela boca de Satanás ao lado de Cássio e de Judas (Inferno 34). O Antônio de Shakespeare o chama de “o mais nobre de todos os romanos”. E não o confunda com Décimo Bruto, parente distante e um dos generais de César, que o acompanhou até o Senado naquela manhã (como César morreu).
Fontes
- Plutarco, Vida de Bruto 1–53
- Suetônio, Vida de Júlio César 50, 80–82
- Cícero, Cartas a Ático 5.21 e 6.1–2; Cícero, Brutus (46 a.C.)
- Denário de prata de Brutus com EID MAR (43–42 a.C.), Museu Britânico
- Dante, Inferno, canto 34; William Shakespeare, Júlio César, ato 5, cena 5 (1599)