A resposta curta
Roma entrou em novas guerras civis. O Senado anistiou os assassinos, mas o testamento de César e o discurso de Marco Antônio no funeral viraram a cidade contra eles. O jovem herdeiro, Otaviano, se uniu a Antônio e Lépido, perseguiu os inimigos e esmagou Bruto e Cássio em Filipos, em 42 a.C. Em 27 a.C., governava sozinho como Augusto.
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Anistia para os assassinos
Os conspiradores esperavam aplausos. Em vez disso, Roma fechou as portas. Bruto e Cássio subiram ao Capitólio com os punhais ainda sujos de sangue e esperaram. Marco Antônio, colega de consulado de César, fugiu para casa disfarçado e depois recolheu com a viúva, Calpúrnia, os papéis e o dinheiro do ditador. Lépido, o comandante da cavalaria, pôs soldados no Fórum.
Em 17 de março o Senado se reuniu no templo de Telus, a deusa Terra. Cícero propôs o que Atenas tinha feito depois da sua própria guerra civil: esquecer o passado. Os assassinos ficariam sem castigo, e todos os atos de César continuariam valendo, porque muitos senadores deviam o cargo a ele. Cássio chegou a jantar com Antônio, e Bruto com Lépido.
O testamento e o funeral
Depois o testamento foi aberto, na casa de Antônio. César deixava ao povo os jardins do outro lado do Tibre e 300 sestércios para cada cidadão, e adotava o sobrinho-neto de dezoito anos, Caio Otávio. Tanta generosidade fez os assassinos parecerem ingratos (o parentesco entre os dois).
No funeral, segundo Suetônio, Antônio quase não discursou. Mandou um arauto ler o decreto que dava a César todas as honras e o juramento dos senadores de protegê-lo, e acrescentou poucas palavras. Apiano conta uma cena maior: Antônio ergueu a toga rasgada e manchada de sangue, e uma figura de cera de César, com as vinte e três feridas, foi levantada num suporte e girada para a multidão ver. O povo cremou o corpo ali mesmo e saiu atrás dos assassinos. Shakespeare fez do momento um discurso célebre, que começa com “Friends, Romans, countrymen”: “Amigos, romanos, compatriotas”. Em poucas semanas, Bruto e Cássio tinham deixado Roma.
O herdeiro de César
Otávio soube da notícia em Apolônia, do outro lado do Adriático, e voltou à Itália para reclamar o nome. Antônio o tratou como um garoto. Otaviano, como os historiadores passam a chamá-lo, respondeu pagando do próprio bolso o presente de César ao povo e montando, também por conta própria, um exército com os veteranos do pai adotivo. Em julho de 44, durante jogos em honra de César, um cometa brilhou por sete dias. Os romanos viram ali a alma de César subindo ao céu, e as estátuas dele ganharam uma estrela.
A guerra não demorou. Antônio cercou Décimo Bruto, um dos assassinos, em Mútina, a atual Módena. Instigado pelos discursos de Cícero, o Senado mandou contra ele os dois cônsules e o jovem Otaviano, e em abril de 43 Antônio foi derrotado. Os dois cônsules morreram. Otaviano ficou com os exércitos deles, marchou sobre Roma e se fez cônsul aos dezenove anos.
Listas de morte e Filipos
Então trocou de lado. Em novembro de 43, Otaviano, Antônio e Lépido se reuniram numa ilha de rio perto de Bonônia, a atual Bolonha, e se fizeram triúnviros por cinco anos, com uma lei para respaldá-los. Publicaram listas de proscritos, como as de Sula. Apiano conta uns 300 senadores e 2.000 cavaleiros condenados, e Cícero estava entre os primeiros nomes (como Cícero morreu). Em 1º de janeiro de 42 a.C., César foi declarado deus: Divus Iulius.
No outono, os triúnviros enfrentaram Bruto e Cássio em Filipos, no norte da Grécia, em duas batalhas separadas por umas três semanas. Na primeira, Bruto tomou o acampamento de Otaviano, enquanto Antônio derrotava Cássio, que achou que tudo estava perdido e mandou um liberto matá-lo. Na segunda, Bruto perdeu e se matou. O verdadeiro vencedor foi Antônio; Otaviano estava doente. Dos outros assassinos, Trebônio foi morto em Esmirna em 43, Décimo Bruto na Gália no mesmo ano, e o último deles, Cássio de Parma, foi executado depois de Ácio.
De três para um
Os vencedores dividiram o mundo romano. Antônio ficou com o Oriente, e com Cleópatra; Otaviano, com a Itália e o Ocidente; Lépido foi afastado em 36 a.C. A parceria acabou em guerra, e em 31 a.C., diante de Ácio, no oeste da Grécia, Otaviano venceu Antônio e Cleópatra (como Antônio morreu). Em 27 a.C. recebeu o nome de Augusto (o primeiro imperador). Os homens que mataram César para salvar a República abriram caminho para a monarquia.
Fontes
- Suetônio, Vida de Júlio César 83–89
- Plutarco, Vida de Antônio 14–22, Vida de Bruto 18–53 e Vida de Cícero 42–48
- Apiano, Guerras Civis 2.118–148 e 4.2–5
- Augusto, Res Gestae 1 e 15
- Veleio Patérculo, História Romana 2.87
- William Shakespeare, Júlio César, ato 3, cena 2 (1599)