A resposta curta
Marco Túlio Cícero (106–43 a.C.) foi o maior orador de Roma, advogado, político e escritor. Vindo de Arpino, sem antepassados no Senado, esmagou a conspiração de Catilina como cônsul em 63 a.C. Depois da morte de César, atacou Marco Antônio nas Filípicas. Quando Antônio e Otaviano se aliaram, foi proscrito e morto em 7 de dezembro de 43 a.C.
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Um homem novo de Arpino
Cícero nasceu em 3 de janeiro de 106 a.C., em Arpino, uma cidade nas colinas a sudeste de Roma, a mesma terra do general Mário. A família tinha dinheiro, mas nunca tinha sentado no Senado. Até o nome era piada: cicer quer dizer grão-de-bico, e Plutarco conta que um antepassado tinha uma fenda na ponta do nariz, igual à de um grão. Cícero prometeu torná-lo mais famoso que os nomes mais orgulhosos de Roma.
Subiu nos tribunais. Em 70 a.C. acusou Verres, um governador que tinha saqueado a Sicília, com tanta força que Verres fugiu para o exílio antes do fim do julgamento. Cícero publicou os discursos que nem precisou fazer. Em 63 a.C., na idade mínima que a lei permitia, chegou a cônsul, um novus homo, homem novo, o primeiro da família a chegar ao topo.
O cônsul e Catilina
Naquele ano, um nobre arruinado, Lúcio Sérgio Catilina, tramou tomar o poder. Cícero o denunciou cara a cara no Senado, com uma abertura que até hoje se aprende na escola: “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?” O mesmo discurso deixou o famoso O tempora, o mores!, “Ó tempos, ó costumes!”. Os discursos ficaram tão célebres que, em português, “catilinária” virou sinônimo de acusação violenta. Catilina fugiu para um exército rebelde. Cinco conspiradores que ficaram em Roma foram presos, e em 5 de dezembro Cícero mandou estrangulá-los sem julgamento. Anunciou numa palavra: vixerunt, “viveram”.
Roma o aclamou pai da pátria, mas nunca esqueceu as execuções. Em 58 a.C., o inimigo dele, Clódio, aprovou uma lei contra quem tivesse matado cidadãos sem julgamento, e Cícero partiu para o exílio. Voltou em um ano e meio, mas Pompeu, Crasso e César já governavam sem ele.
As Filípicas
Na guerra civil, ficou do lado de Pompeu, perdeu e foi perdoado por César. Afastado do poder e de luto pela filha, Túlia, morta em 45 a.C., escreveu filosofia, como Dos deveres e Da natureza dos deuses. Não participou dos Idos de Março, embora depois tenha dito a um dos assassinos que gostaria de ter sido convidado para aquele banquete (Cartas aos amigos 10.28).
Com César morto, Cícero viu uma última chance para a República e um homem no caminho: Marco Antônio. De setembro de 44 a abril de 43 a.C., atacou-o em discurso após discurso, dos quais catorze sobrevivem. Chamou-os de Filípicas, por causa dos discursos de Demóstenes contra Filipe da Macedônia, e “filípica” ainda quer dizer um ataque verbal furioso. A mais feroz, a Segunda, nunca foi pronunciada; circulou por escrito. Para derrotar Antônio, apoiou o herdeiro adolescente de César, Otaviano, brincando que o rapaz devia ser louvado, honrado e elevado. Em latim, a última palavra também queria dizer eliminado.
Como ele morreu
Otaviano tinha outros planos. Em novembro de 43 a.C. fez as pazes com Antônio e Lépido, e os três publicaram listas de homens a serem mortos. Antônio exigiu Cícero. Plutarco diz que Otaviano resistiu dois dias e o entregou no terceiro. Cícero tentou fugir por mar, voltou atrás e foi alcançado perto da sua casa de campo em Fórmias, em 7 de dezembro. Mandou os escravos baixarem a liteira e esticou o pescoço para a espada do centurião. A cabeça e as mãos, as mãos que escreveram as Filípicas, foram pregadas nos Rostros, no Fórum. Cássio Dio acrescenta que Fúlvia, mulher de Antônio, furou a língua do morto com os grampos do cabelo.
O que ele deixou
De Cícero sobrou mais do que de quase qualquer outro romano: dezenas de discursos, livros de retórica e filosofia e mais de novecentas cartas, o retrato mais rico da vida privada no fim da República. Quando Petrarca achou as cartas dele a Ático em Verona, em 1345, a descoberta alimentou a paixão renascentista pelo latim. Plutarco termina com uma história. Anos depois, Augusto flagrou um neto lendo Cícero, leu ele mesmo por um bom tempo e devolveu o livro, chamando-o de homem sábio, e amante da sua pátria.
Fontes
- Plutarco, Vida de Cícero 1, 22, 46–49
- Cícero, Contra Catilina 1; Filípicas 1–14; Cartas aos amigos 10.28 e 11.20
- Salústio, A conjuração de Catilina
- Cássio Dio, História Romana 47.8
- Apiano, Guerras Civis 4.5–6