A resposta curta
Foi o rei de Portugal que governou de dentro do Brasil. Regente no lugar da mãe doente, dona Maria I, fugiu de Napoleão em 1807, abriu os portos em 1808, fez do Brasil um reino em 1815 e foi aclamado rei no Rio em 1818. Voltou a Lisboa em 1821 e deixou aqui o filho Pedro.
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O regente que atravessou o oceano
João não nasceu para ser rei. O herdeiro era o irmão mais velho, José, que morreu em 1788. Com a mãe, dona Maria I, afastada do governo por doença mental, ele passou a governar Portugal no lugar dela, como príncipe regente. Em 1785, tinha se casado com Carlota Joaquina, filha do futuro rei Carlos IV da Espanha. A noiva tinha 10 anos.
Em novembro de 1807, Napoleão exige que Portugal feche os portos aos ingleses. Portugal, velho aliado da Inglaterra, enrola até não poder mais, e o exército do general Junot marcha sobre Lisboa. Dom João escolhe o mar. Em 29 de novembro, a frota deixa o Tejo sob escolta da Marinha britânica, com a rainha, a família real e a corte. No dia seguinte, Junot entra na cidade. Quantos vieram? A tradição fala em 10 a 15 mil pessoas. Os documentos contam bem menos, e as estimativas vão de poucos milhares a 15 mil.
O que ele fez no Brasil
Depois de 54 dias de mar, o navio do príncipe chega a Salvador. Ali, em 28 de janeiro de 1808, dom João assina a carta régia que abre os portos do Brasil às nações amigas. Por três séculos, o comércio da colônia passava por Lisboa. Agora, navios estrangeiros, quase sempre ingleses, podem atracar direto. Em 8 de março, a corte desembarca no Rio, e a cidade vira capital de um império espalhado por quatro continentes. Em poucos anos, ganha:
- a Imprensa Régia e o primeiro jornal impresso no país, a Gazeta do Rio de Janeiro;
- o Banco do Brasil;
- o jardim que virou o Jardim Botânico;
- a Real Biblioteca, cerca de 60 mil volumes chegados de Lisboa em caixotes, entre 1810 e 1811.
Para abrigar tanta gente, casas foram requisitadas e marcadas na porta com P.R., de Príncipe Regente. O povo, conta a tradição, lia “Ponha-se na Rua”. E nada disso mudou uma coisa: quase metade dos moradores do Rio era escravizada, e desde 1811 o cais do Valongo recebia centenas de milhares de africanos trazidos pelo tráfico.
Rei no Rio
Com Napoleão derrotado, Lisboa esperava o regente de volta. Ele ficou e, em 1815, mudou o lugar do Brasil no império:
Que desde a publicação desta Carta de Lei o Estado do Brasil seja elevado à dignidade, preeminência e denominação de Reino do Brasil.
No papel, o Brasil deixava de ser colônia. Dona Maria I morreu em 1816, e dom João foi aclamado rei no Rio em 6 de fevereiro de 1818. Um ano antes, Pernambuco tinha proclamado uma república, que durou cerca de 75 dias; os líderes foram executados.
A volta e o título de imperador
Em 1820, a revolução do Porto exigiu uma Constituição e o rei de volta. Dom João embarcou em 26 de abril de 1821 com Carlota Joaquina, que nunca gostou do Rio, e deixou o filho Pedro como príncipe regente. Segundo uma carta do próprio Pedro, o pai o aconselhou: se o Brasil tivesse de se separar, que fosse com ele, e não com algum aventureiro. As palavras exatas mudam de versão para versão. O que o filho fez com o conselho está em Quem foi Dom Pedro I?.
Dom João VI foi imperador do Brasil? Só no título. No tratado de 1825, em que Portugal reconheceu a independência, ele ficou com o título honorário de imperador do Brasil. Morreu em Lisboa no ano seguinte.
A memória popular guardou um rei medroso e comilão, imagem reforçada pelo filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, de 1995. Muitos historiadores, desde Oliveira Lima, em 1908, enxergam outra coisa: um governante cauteloso que, ao atravessar o oceano, salvou a coroa que Napoleão tomou de tantos outros reis. A separação que ele previu está em Como foi a Independência do Brasil?.
Fontes
- Carta régia de 28 de janeiro de 1808 (abertura dos portos); Carta de Lei de 16 de dezembro de 1815
- Câmara dos Deputados, “D. João VI” (página de história)
- Jurandir Malerba, sobre o tamanho da comitiva de 1807, Revista Brasileira de Estudos de População (2008)
- Oliveira Lima, Dom João VI no Brasil (1908)