História do Brasil · Números

Quantos africanos escravizados vieram para o Brasil?

A resposta curta

Cerca de 4,9 milhões chegaram vivos, segundo o SlaveVoyages: 4,86 milhões entre 1501 e 1866. É quase metade dos 10,7 milhões de africanos que desembarcaram nas Américas, mais do que qualquer outro país. Os Estados Unidos receberam cerca de 390 mil. De todos os embarcados, cerca de 1,8 milhão morreu no mar.

Revisado em

A conta do SlaveVoyages

O número mais usado pelos historiadores vem do SlaveVoyages, o banco de dados internacional do tráfico transatlântico, montado a partir dos registros que sobreviveram das viagens de navios negreiros. Entre 1501 e 1866, ele estima:

  • Embarcados à força na África: cerca de 12,5 milhões de pessoas
  • Chegaram vivos às Américas: 10,7 milhões
  • Brasil: cerca de 4,86 milhões, quase metade
  • Todo o Caribe britânico: 2,3 milhões
  • Estados Unidos: cerca de 390 mil
  • Morreram no mar: cerca de 1,8 milhão

Faça a conta: para cada africano levado aos Estados Unidos, uns doze desembarcaram no Brasil. Nenhum país das Américas chegou perto. Em alguns textos você vai achar 4,8 milhões; a estimativa usada aqui é a do SlaveVoyages, 4,86 milhões, que arredondada dá 4,9.

De onde vinham, e quem levava

Os navios iam buscar gente sobretudo em Luanda, em Benguela e na Costa da Mina. E não eram só navios portugueses ou estrangeiros. Muitos saíam do Rio, de Salvador e do Recife, com donos e tripulações daqui, num comércio direto com a África, como mostra o historiador Luiz Felipe de Alencastro em O trato dos viventes. O tráfico também era um negócio brasileiro.

Foram mãos escravizadas que produziram a riqueza da colônia e do Império: primeiro o açúcar de Pernambuco e da Bahia, depois o ouro de Minas, por fim o café do Vale do Paraíba. Muitos vinham da região de Angola e falavam quimbundo, e o português do Brasil guarda até hoje palavras de lá e de outras línguas bantas: senzala, cafuné, moleque, caçula, quitanda, como mostra a linguista Yeda Pessoa de Castro.

A travessia

Atravessar o Atlântico Sul levava semanas. No porão, centenas de pessoas viajavam espremidas, quase sem ar e sem água limpa. Dos 12,5 milhões embarcados, cerca de 1,8 milhão não chegou. Um dos que sobreviveram contou:

Seus horrores, ah! Quem pode descrever? Ninguém pode pintar seus horrores com tanta verdade quanto o pobre infeliz, o miserável que esteve preso lá dentro.

Mahommah G. Baquaqua, Biografia (Detroit, 1854), sobre o navio negreiro (tradução do Herald)

Baquaqua nasceu em Djougou, no atual Benim, e foi embarcado para Pernambuco por volta de 1845. Fugiu em Nova York em 1847. O livro dele é o único relato autobiográfico conhecido de alguém escravizado no Brasil.

Quando o número vira lugar

Só pelo Cais do Valongo, no Rio, passaram cerca de 900 mil africanos a partir de 1811, estima a UNESCO. Coberto em 1843, o cais foi reencontrado em 2011, nas obras do porto, e é Patrimônio Mundial desde 2017. Nem a proibição segurou o fluxo: depois da lei de 1831, mais de 700 mil africanos entraram ilegalmente até 1850, a origem, diz a tradição, do para inglês ver. Por que a abolição ainda demorou até 1888, você vê em O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão?.

Fontes

  • SlaveVoyages, Trans-Atlantic Slave Trade Database, estimativas de 1501 a 1866
  • Mahommah G. Baquaqua e Samuel Moore, Biography of Mahommah G. Baquaqua (Detroit, 1854)
  • UNESCO, Sítio Arqueológico Cais do Valongo (Patrimônio Mundial, 2017)
  • Luiz Felipe de Alencastro, O trato dos viventes (2000)