A resposta curta
Zumbi foi o último líder de Palmares, os mocambos livres nas serras entre Pernambuco e Alagoas. Recusou o acordo de 1678, que devolvia fugidos ao cativeiro, e resistiu por quinze anos. Traído por um companheiro capturado, foi morto em 20 de novembro de 1695. Hoje é Herói da Pátria e dá nome ao Dia da Consciência Negra.
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Um século de liberdade nas serras
Pernambuco, século XVII. O açúcar fazia da capitania uma das terras mais ricas do império português, e cada engenho dependia de gente escravizada. Quem fugia procurava o interior, onde a mata de palmeiras cobria as serras. Ali surgiram os mocambos, aldeias livres. Os colonos chamavam o conjunto de Palmares.
Não era um lugar só. Eram vários mocambos, como Macaco, Subupira e Mouza, que mudaram de lugar ao longo de quase um século, entre o sul de Pernambuco e o atual estado de Alagoas. Havia roças de milho e mandioca, forjas, comércio com os vizinhos. Muitos moradores vinham da região de Angola e falavam quimbundo. E ali nasciam crianças que nunca tinham conhecido o cativeiro. Quantas pessoas viviam lá? Os documentos falam em milhares, e ninguém sabe o número certo.
O acordo que Zumbi recusou
Por décadas, expedições holandesas e portuguesas fracassaram. Em 1675 e 1677, tropas do governador arrasaram mocambos e prenderam parentes do chefe, que os livros chamam de Ganga Zumba. A historiadora Silvia Lara, relendo um manuscrito de 1678, defende que o nome certo é Gana Zumba: em quimbundo, “gana” é senhor. Em 1678, ele mandou emissários ao Recife e fechou um acordo. Liberdade para os nascidos em Palmares e terras no Cucaú. Em troca, teria de entregar quem tinha fugido dos engenhos.
Zumbi recusou. Nenhum acordo que devolvesse gente ao cativeiro. Ficou na serra com quem quis ficar e assumiu a liderança. O acordo ruiu em menos de dois anos: Ganga Zumba foi assassinado em 1680, a tradição fala em veneno, e moradores do Cucaú voltaram a ser escravizados.
Quinze anos de guerra
Zumbi aguentou expedição atrás de expedição por quinze anos. Em 1694, depois de um longo cerco, as tropas do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho tomaram o reduto da Serra da Barriga, hoje no município de União dos Palmares, em Alagoas. Zumbi escapou ferido. Traído por um companheiro que tinha sido capturado, foi encontrado e morto em 20 de novembro de 1695. A cabeça dele foi exposta no Recife.
O governador escreveu ao rei: acabou Palmares, e acabou o mito de que Zumbi era imortal. Errou nas duas coisas. O último mocambo, o Mouza, resistiu até 1714. E Zumbi virou lenda.
Um rosto que ninguém pintou
Não existe retrato de Zumbi feito em vida. O quadro de Antônio Parreiras é de 1927, e as estátuas que você vê nas praças são interpretações. O que se sabe dele vem de documentos escritos pelos inimigos, como a Relação das guerras feitas aos Palmares, de 1678, que Silvia Lara reencontrou na Torre do Tombo, em Lisboa, em 2009.
Quem guardou a memória dele foi o movimento negro. Em 1996, no tricentenário da morte, a Lei 9.315 inscreveu o nome de Zumbi no Livro dos Heróis da Pátria. O dia em que ele morreu virou o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, e a história dessa escolha está em Por que o Dia da Consciência Negra é em 20 de novembro?. No alto da Serra da Barriga, hoje, fica o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. A lei que acabou com a escravidão só veio quase dois séculos depois: O que foi a Lei Áurea?.
Fontes
- Relação das guerras feitas aos Palmares (1678), Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa
- Lei nº 9.315, de 20 de novembro de 1996 (inscreve Zumbi no Livro dos Heróis da Pátria)
- Silvia Hunold Lara, Palmares & Cucaú (2021)
- Revista Pesquisa FAPESP (2023), sobre as pesquisas de Silvia Lara e Phablo Fachin
- Iphan, Parque Memorial Quilombo dos Palmares, Serra da Barriga, União dos Palmares (AL)