A resposta curta
Colonos fenícios vindos de Tiro, a grande cidade portuária do atual Líbano. A tradição situa a fundação por volta de 814 a.C. e dá nome à líder: Elissa, mais conhecida como Dido, uma princesa de Tiro que fugiu do irmão, o rei Pigmalião. A rainha é lenda; a origem fenícia, não. A cidade se chamava Qart Hadasht, “Cidade Nova”.
Revisado em
Gente de Tiro
Cartago nasceu como colônia de Tiro, uma cidade construída numa ilha diante da costa do atual Líbano e o porto mais movimentado dos fenícios. Esses navegadores se lançaram para o oeste entre os séculos IX e VIII a.C. atrás de prata, estanho e novos mercados, e foram deixando entrepostos pelo caminho: em Gades, a atual Cádiz, na Espanha, na Sicília, na Sardenha e na costa da África (onde ficam Tiro e Sidom hoje).
Os colonos chamaram a cidade de Qart Hadasht, “Cidade Nova” em fenício. Os gregos transformaram o nome em Karchedon, os romanos em Carthago, e daí veio o nosso Cartago. Ficava numa península no golfo de Túnis, com um ancoradouro protegido e um morro para a cidadela (o que restou dela).
A princesa que fugiu do irmão
A lenda chegou até nós sobretudo pelo resumo que Justino fez da obra de Pompeu Trogo, historiador da época de Augusto. Elissa, princesa de Tiro, era casada com o tio, Acerbas, sacerdote do deus Melcarte e dono de uma fortuna escondida. O irmão dela, o rei Pigmalião, mandou matá-lo para ficar com o ouro. Elissa embarcou o tesouro às escondidas e partiu com nobres que detestavam o rei.
Na África, pediu aos moradores só a terra que coubesse num couro de boi. Então cortou o couro em tiras tão finas que deram a volta num morro inteiro. Era a Byrsa, e byrsa quer dizer couro em grego, um trocadilho que só funciona em grego. Mais tarde, um rei vizinho exigiu casar com ela, ou haveria guerra. Elissa mandou erguer uma pira, como para um rito, e se apunhalou em cima dela para não trair a memória do marido. Justino conta que Cartago a cultuou como deusa enquanto a cidade se manteve invicta.
A Dido de Virgílio
Os romanos a chamavam de Dido, e a Dido que todo mundo conhece é a de Virgílio. Na Eneida, escrita no tempo de Augusto, o troiano Eneias naufraga na costa africana quando a rainha ainda está construindo a cidade. Os dois se apaixonam, até que os deuses mandam o herói seguir para a Itália, onde os descendentes dele vão fundar Roma. Abandonada, Dido amaldiçoa o povo de Eneias, pede que dos seus ossos nasça um vingador e morre na pira com a espada que ele deixou. Os romanos liam ali o anúncio de Aníbal.
É poesia, não história. Pelas contas dos gregos, Troia caiu por volta de 1184 a.C., mais de três séculos antes de Cartago existir. No Brasil, a Eneida ganhou em 1854 a tradução em versos do maranhense Odorico Mendes.
Dido existiu?
Ninguém sabe. Nenhuma inscrição cita o nome dela. A data tradicional vem do historiador grego Timeu, que escreveu uns cinco séculos depois e pôs a fundação 38 anos antes da primeira Olimpíada, ou seja, em 814 a.C. Para Roma ele escolheu o mesmo ano (como Roma foi fundada).
O irmão tem mais chance de ter existido. Flávio Josefo copiou uma lista dos reis de Tiro feita por Menandro de Éfeso, que dizia ter consultado os arquivos da cidade: no sétimo ano do reinado de Pigmalião, a irmã dele fugiu e fundou Cartago na Líbia, o nome grego da África. Os vestígios mais antigos escavados em Cartago são do século VIII a.C., poucas gerações depois da data tradicional. A maioria dos historiadores vê uma colônia real de Tiro por trás de uma rainha lendária.
Os cartagineses eram fenícios?
Eram, e faziam questão disso. Falavam púnico, uma variante do fenício, língua parente do hebraico, escreviam com o alfabeto fenício e cultuavam Baal Hamon e a deusa Tanit. Continuavam mandando oferendas a Melcarte, na cidade-mãe: quando Alexandre, o Grande, sitiou Tiro em 332 a.C., havia embaixadores cartagineses lá dentro, cumprindo o antigo costume de honrar o deus.
Os romanos os chamavam de Poeni, da palavra grega para fenícios, e daí vem “púnico”. A rivalidade deixou até uma expressão latina: Punica fides, a “fé púnica”, que queria dizer traição. Mesmo assim, a língua sobreviveu à cidade que Roma arrasou em 146 a.C.: no século V d.C., Agostinho de Hipona ainda encontrava camponeses que, segundo ele, falavam púnico.
Fontes
- Justino, Epítome das Histórias Filípicas de Pompeu Trogo 18.4–6
- Virgílio, Eneida, cantos 1 e 4
- Flávio Josefo, Contra Apião 1.18 (citando Menandro de Éfeso)
- Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas 1.74 (a data de Timeu)
- Arriano, Anábase de Alexandre 2.24
- Richard Miles, Carthage Must Be Destroyed (2010)