A resposta curta
Não com essas palavras, mas a ideia vem dos Evangelhos. Rejeitado pelos vizinhos de Nazaré, Jesus responde com um provérbio: “Um profeta não fica sem honra, a não ser na sua própria terra” (Marcos 6:4). E Marcos conta que ele “não pôde fazer ali nenhuma obra poderosa”. É o santo de casa que não faz milagre.
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A cena em Nazaré
Marcos conta a visita depois de uma série de prodígios em volta do lago. Jesus volta para a terra natal com os discípulos e, no sábado, ensina na sinagoga do povoado. O público fica admirado, e logo depois incomodado. De onde ele tirou tudo isso? Eles sabem muito bem quem ele é.
Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui conosco?
“E escandalizavam-se por causa dele”, diz Marcos. O verbo grego deu em português a palavra escândalo: Jesus vira pedra de tropeço para eles. O carpinteiro que todos conheciam, da família que todos sabiam de cor, agora falando como profeta. Ele responde com um provérbio.
Um profeta não fica sem honra, a não ser na sua própria terra, entre os seus parentes e na sua própria casa.
Vem então uma frase que espanta num Evangelho: “Ele não pôde fazer ali nenhuma obra poderosa, a não ser impor as mãos sobre alguns enfermos e curá-los” (Marcos 6:5). E Jesus, diz Marcos, “admirou-se da incredulidade deles”. Mateus suaviza: ele “não fez muitas obras poderosas ali” (Mateus 13:58).
Um provérbio, quatro Evangelhos
- Marcos 6:4. A forma mais completa: a terra, os parentes, a própria casa.
- Mateus 13:57. A mesma frase, sem os parentes. Os conterrâneos o chamam de “o filho do carpinteiro”.
- Lucas 4:24. “Nenhum profeta é bem aceito em sua cidade natal”, num sermão que termina na beira de um penhasco.
- João 4:44. João cita a frase como algo que o próprio Jesus “testemunhou”, quando ele volta para a Galileia.
- Evangelho de Tomé, dito 31. Uma coleção de ditos achada no Egito em 1945 junta o profeta e o médico: nenhum profeta é aceito na própria aldeia, e nenhum médico cura quem o conhece.
Em Lucas, do aplauso ao penhasco
Lucas põe a visita no começo do ministério e faz dela um drama. Jesus se levanta para ler, recebe o livro do profeta Isaías e lê sobre boas-novas aos pobres e libertação aos cativos. “Hoje, esta Escritura se cumpriu enquanto vocês a ouviam” (Lucas 4:21). A sinagoga aprova, até alguém perguntar: “Não é este o filho de José?” Jesus já sabe o que vão pedir.
Sem dúvida vocês me citarão este provérbio: ‘Médico, cure a si mesmo! Tudo o que ouvimos que foi feito em Cafarnaum, faça também aqui na sua cidade natal.’
E ainda piora as coisas. Elias foi mandado a uma viúva estrangeira, em Sarepta, e Eliseu curou Naamã, o sírio: os profetas de Deus ajudaram gente de fora quando Israel não quis ouvir. A sinagoga explode, e a multidão arrasta Jesus até o alto do monte para jogá-lo do penhasco. Ele passa “pelo meio deles” e segue o seu caminho (Lucas 4:30). Os peregrinos ainda visitam o lugar, como conta Onde fica Nazaré?
O santo de casa
O ditado brasileiro não está na Bíblia com essas palavras, mas é quase um resumo de Marcos 6: o santo de casa, o filho do carpinteiro, quase não fez milagres na própria terra, por causa da incredulidade dos vizinhos. E a Bíblia tem casos mais antigos. Os homens de Anatote, a aldeia de Jeremias, ameaçaram matá-lo se ele continuasse a profetizar (Jeremias 11:21). Os irmãos de José venderam o sonhador com quem tinham crescido. Numa aldeia de poucas centenas de pessoas, todo mundo conhecia a família, o ofício e as fofocas, e o filho do vizinho falando em nome de Deus era mais difícil de ouvir do que um estranho. A aldeia do lado também tinha as suas dúvidas: veja de Nazaré pode sair alguma coisa boa?
Hoje a gente usa o ditado para qualquer talento reconhecido em toda parte, menos em casa: o músico que faz sucesso lá fora antes de ser levado a sério na própria cidade, o médico da família que ninguém da família escuta.
Fontes
- Marcos 6:1–6
- Mateus 13:53–58
- Lucas 4:16–30
- João 4:43–45
- Jeremias 11:18–23
- Evangelho de Tomé, dito 31 (fragmento grego no Papiro de Oxirrinco 1)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.